Elogio do mês nove

Elogio do mês nove
Sou leão de Julho com um fraquinho por Setembros. Por verões que esticam, livros novos, regresso dos espectáculos. Em miúda lia os manuais escolares todos antes do começo das aulas. Ainda não se usava a palavra ‘nerd’, era mesmo só pascácia. Ler aquilo tudo de rajada era uma excitação. Depois a partir daí era sempre a descer, porque o quotidiano das aulas não estava à altura daquela novidade. (E, para além disso, fui à escola no tempo da democratização, em que ninguém ligava pevide aos bons alunos. Era preciso ‘puxar’ pelos mais fracos e portanto nunca íamos ao quadro, nem ninguém nos perguntava pelos trabalhos de casa, e era comum sentarem-nos ao lado dos alunos que precisavam da nossa ajuda, para os ajudarmos a recuperar as notas. Nunca fiz as pazes com esse método de ensino visionário mas namorar com alguns rufias foi muito útil para a minha formação moral. Fechar parêntesis).
Em Setembro ainda dá para mergulhar no mar um par de vezes; para passar fins de tarde na Feira do Livro, à hora em que as luzinhas na Avenida das Tílias se acendem e livros e árvores combinam no encanto. Dá para ir a pé sem apanhar chuva ao Trindade, ver bons filmes e namorar, e pensar. Daqui a nada o tempo fecha e só nos salvam os livros e o whisky. Outra coisa em que Setembro é excepcional é na disponibilidade para fazer grandes planos. Eu já tenho dois: em 2019 haverá uma grande viagem ao Chile e um livro. Também faço 40 anos mas isso não é produto do meu planeamento, senão não acontecia. feira do livro

Uma terceira coisa

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Uma terceira coisa
Além de me pôr a pensar no teatro que se faz hoje, e no teatro que se faz hoje no Porto, o “M’18” da Estrutura (Rivoli, 25 e 26 de Maio) trouxe-me o incómodo de uma comichão pessoal. Já lá vou, quando acabar de atender este freguês. Primeiro, o espectáculo, profissionalíssimo: eles parecem conseguir captar (apropriar-se?) um certo espírito millenial de hiper-relativismo e hiper-conexão em que o teatro raramente é feliz, e aqui é-o. O pior destes exercícios costuma ser a sensação “ah, é como um episódio do Black Mirror mas em teatro”, o melhor é quando ficam mais perto da formulação de uma linguagem que também pode ser teatral, porque não? Música, figurinos, etc etc, parece tudo no sítio, é tudo assumidamente estilizado, mas a proposta é consistente do início ao fim. Exceptuando o texto, que para mim tem fragilidades de púlpito aqui e ali que se dispensavam, tudo o resto habita o aquário do século XXI de forma admirável: hiper-sexual, hiper-individual e politicamente à deriva. Eles não querem ser o “o oprimido nem o opressor” (mas à saída dão-nos um paralelo…) não sabem se são filhos da revolução, ou netos, herdeiros ou carrascos. Não querem isto nem aquilo (esquerda nem direita?), querem ‘uma terceira coisa’. É isso mesmo que é a tarefa deste tempo, se calhar.
Normalmente não me fascina o universo político sem utopia nem distopia, mas essa ‘terceira coisa’ pode vir a ser útil, se for mais além do que, até agora, o relativismo pós-ideológico foi capaz de ir. Depois do encolher de ombros, trade mark dos pós-modernos, uma coisa nova para desejarmos? Pode ser o melhor que está a acontecer-nos, o futuro também deixar de ser binário.
Tenho perdido umas quantas horas a pensar na falta que fazem umas borrifadelas de bom-senso para cima da malta. Dou por mim a desistir de certas conversas, porque onde antes havia uma boa discussão, farpas para lá e para cá, já só vejo prepotência, agressão e entrincheiramento. O espírito crítico fugiu com a cunhada e agora é só crítica, sem espírito nem inteligência vigilante. Quem acusa é que sabe, sempre. Se não acusas és idiota, ou colaboracionista, o que é pior, claro. E não culpem as redes sociais: é verdade que permitem uma amplificação estupenda das opiniões pronto-a-comer mas não são elas que fabricam os pistoleiros.
Discordo de quem concordo e concordo cada vez mais com as posições daqueles de quem discordo. É uma chatice e um paradoxo tramado. Ou é o começo de uma coisa nova, que ainda não sei nomear. M’18?

Plano de Ruminação

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Na minha inclinação peripatética tenho acumulado quilómetros entre o enclave das Belas Artes e o mar: vou fazendo a fotossíntese, calcando a cidade e arrumando ideias, mas de cada vez que regresso a casa a arrumação piorou. A lista das ruminações recentes foi trabalhosa. Felizmente o Porto foi entretanto campeão e andei a agitar cachecóis e a espantar irritações, que a alegre coboiada também serve o escapismo intelectual. Por isso, ficam a reflexão sobre o encontro do IETM no Porto e outras incursões sobre a amada nação cultural enterradas debaixo do pontapé do Brahimi e das lágrimas do Sérgio Conceição. Em vez disso, estou aqui de porteiro de mais uma ego-trip para partilhar as chatices com que me vou ocupar no doutoramento. Quem quiser sair, é agora, a partir daqui fica chato.
Expor sucintamente o ponto de partida de um objecto de estudo é sempre redutor, mas parto para esta tarefa determinada a fazê-lo de forma aberta e dialogante, pelo que prefiro correr os riscos da exposição necessariamente fragmentada do que alimentar o monstro na torre de marfim. Não podia, aliás, ser de outra maneira, porque me propus trabalhar no pressuposto de que a investigação sobre artes tem uma autonomia epistemológica que deriva da própria natureza do trabalho artístico (sigo a talentosa Steyerl) e se caracteriza por um compromisso primordial com a produção de conhecimento útil aos artistas e aos que com eles trabalham. Isto passa por assumir o carácter híbrido da gestão cultural e dos estudos artísticos e, nessa medida, procurar ser orientada por uma visão devedora da visão dos artistas, integrando as narrativas produzidas pelos próprios sobre o seu trabalho, seja de forma directa, através das suas obras, seja indirectamente, através dos seus testemunhos. Será um esforço simultaneamente ético e estético: ético, porque habilita a própria produção artística para a construção do conhecimento que lhe é dedicado; estético, porque suspeito que a idealização formal própria dos artistas pode originar formulações novas quanto ao objetivo da pesquisa (ultrapassando manuais de gestão das artes reciclados da gestão empresarial). Posso estar errada, claro, o que também dá uma certa graça a isto tudo.
O ponto de partida, portanto, é o seguinte:
Aturdidos pelo pragmatismo hegemónico, os artistas e os que com eles trabalham parecem (ter de) investir toda a sua energia no contínuo combate ao subfinanciamento da actividade artística, na denúncia das situações de precariedade em que o sector largamente assenta, no questionamento dos modelos de apoio público à criação e difusão, entre outros aspectos de ordem operacional. A estes debates, decisivos, gostava de juntar o questionamento dos próprios modelos de criação, organização e trabalho dos artistas, os seus pressupostos e a natureza das relações entre pares que se têm vindo a estabelecer. Tal significa que, claro está, é urgente atender às condições do trabalho criativo em Portugal, mas também que, ao invés de analisarmos o comportamento das estruturas e dos artistas face às mutações do sistema artístico institucional (nas suas dimensões laborais, legais, económicas), queremos olhar aprofundadamente para o que se passa dentro das estruturas de criação. Não dispensando o aparato das políticas culturais e suas implicações para a estruturação do tecido artístico, interessa-nos compreender motivações e decisões individuais: porque fundamos e mantemos companhias de teatro e dança? Como as gerimos? Ou, dito de outra forma, de que modo se intersectam os regimes de criação e de produção?
Ao incidir sobre a dinâmica interna das organizações artísticas, estamos também a questionar a ideia de que, por se tratarem de entidades sem fins lucrativos, estas se orientam necessariamente por um padrão democrático nas suas práticas de trabalho e a sublinhar que a análise das condições materiais do trabalho artístico não é suficiente para compreender a sua complexidade ou algumas transformações importantes que o afectam: a crescente presença de gestores e produtores culturais trabalhando a par dos criadores, a emergência da crítica ao modelo individualista do artista-virtuoso-empreendedor, os sinais de esgotamento do modelo clássico de companhia, a contaminação crescente entre sistema institucional/projectos alternativos, ou a expansão das práticas colaborativas, por exemplo.
Partilharei mais detalhes em breve, mas, se não tiver sido engolida pela retórica, terá dado para perceber: a investigação centrar-se-á no estudo da forma como artistas, programadores, produtores e gestores culturais se organizam para trabalhar hoje, em Portugal, nas artes performativas. O desafio concreto é perspectivar novos modelos de colaboração entre os que produzem arte, os que acompanham quem a produz e a formulação de políticas culturais. Se me virem na rua e parecer distraída, ando a pensar nisto.

 

AINDA BEM.

Ainda bem que António Costa encontrou mais dinheiro para a cultura, porque ele é absolutamente necessário e merecido face ao trabalho que este sector desenvolve e aos impactos que gera (tal como o de todos os outros trabalhadores portugueses, nem mais nem menos).

Ainda bem que António Costa mantém a confiança no Secretário de Estado, porque o Miguel Honrado é, de longe, um dos mais conhecedores e comprometidos governantes que esta área teve em muitos anos.

Ainda bem que a ‘carta aberta’, mesmo que admitindo falhas e necessidade clara de melhoria, sublinha a legitimidade dos concursos  – para caos já basta o actual.

Ainda bem que a união determinada, mesmo que temporária, dos artistas e agentes culturais resultou numa exigência atendida – sinal de que, ao contrário de tempos recentes, criticar é uma forma legítima de participar na vida democrática e é dever de quem governa estar atento à crítica.

MAS NÃO É DIA DE FESTA.

Que o dinheiro tenha vindo – e seja exclusivamente justificado – como resultado da ‘extraordinária dinâmica dos concursos’ é uma desolação. Isso significa que se o júri tivesse atribuído pontuações mais baixas, abaixo do limiar de elegibilidade, não havia necessidade de reforçar o orçamento da cultura? É que todos sabemos que não são só as “companhias”, barulhentas, que precisam de dinheiro. Desde logo, o próprio Ministério da Cultura precisa de meios, por exemplo, para reforçar e qualificar a acção das Comissões de Acompanhamento, uma exigência de proximidade que está em praticamente todos os comunicados e manifestos emitidos. No campo da coesão territorial, e da articulação com a programação cultural descentralizada, está quase tudo por fazer, e – como ficou à vista – não são umas percentagens encavalitadas em cima dos montantes regionais que vão resolver o problema. E muitas outras áreas de intervenção no campo da cultura – e da intersecção entre cultura e educação, em que não há nenhuma novidade – vivem situações de penoso sub-financiamento.

É, claro, Senhor Primeiro-Ministro, que o orçamento não deve ser o único tema de discussão. Mas quanto pagamos por uma coisa continua a ser, em certa medida, uma expressão do valor que lhe atribuímos, e o facto de só ter decidido investir mais na cultura quando os protestos se tornaram desconfortavelmente mediáticos, é fraco consolo para quem anuncia ver na cultura uma centralidade inequívoca. É uma pena que, politicamente, esta não tenha sido a oportunidade para corrigir o evidente desacerto: a cultura continua sem um orçamento à altura da importância que lhe é politicamente imputada.

Dizê-lo não é menosprezar a acção de hoje, nem todas as acções deste governo em matéria de cultura. É precisamente por essa capacidade e compromisso que este governo anuncia que temos de exigir mais, e melhor. Não estranhe por isso os protestos: são de exigência, não de desvario.

 

A Criação do Suspense

Um dos primeiros livros que resolvi ler logo após ter decidido fazer o doutoramento foi “A Criação do Suspense”, da Patricia Highsmith. O meu fanatismo pelos livros dela amornou depois da adolescência, altura em que li tudo o que ela publicava, mas fiquei intrigada com este, em que ela supostamente ‘desvenda o processo de criação dos seus personagens e dos enredos em que se movimentam’. É um livrinho como deve ser (pese embora uma tradução discutível), com capa do Jorge Colombo, tamanho certo, letras gordas, com capítulos fabulosamente titulados. Vou voltar a ele muitas vezes, até porque tenho um projecto secreto de copiar umas partes, se me sentir desesperada.

“Os criminosos são dramaticamente interessantes porque, pelo menos durante algum tempo, são activos, livres de espírito e não se ajoelham perante ninguém.”

Pareceu-me logo evidente que para sobreviver à empreitada de investigação eu teria, sobretudo, de garantir que era capaz de divertir-me enquanto escrevia; igualmente, não ficaria satisfeita comigo mesma se aborrecesse de morte quem viesse a ler-me; e estava seguramente interessada em combater o medo do tédio metodológico com uma estratégia de auto-sabotagem que me mantivesse entretida. Acabei por encontrar na deliciosa história do cágado, que a Patricia Highsmith inclui neste livro, um ponto de referência que esperava que me viesse a ser útil.

“Uma noite em casa de alguém, estava a folhear um livro de cozinha e vi uma receita horrorosa para fazer um guisado de cágado. A receita para sopa de tartaruga é menos horrenda, e, pelo menos, começa-se o trabalho esperando que a tartaruga ponha a cabeça de fora, para depois a decapitar com uma faca afiada. Os leitores que achem que os livros de suspense se estão a tornar insípidos, talvez gostassem de conhecer certas partes dos livros de cozinha que têm a ver com os nossos amigos de penas e conchas. Uma dona de casa precisa de ter um coração de pedra para ler estas receitas. Quanto mais para as executar! O método para matar um cágado é cozê-lo vivo. A palavra matar não era usada, nem tinha de o ser. Que é que podia sobreviver à água a ferver? Mal acabei de ler isto, a história do rapazinho atormentado voltou-me ao espírito. Faria a história girar à volta de um cágado. A mãe traz para casa um cágado para fazer um guisado. Um cágado que o rapaz inicialmente pensa ser um animal de estimação para ele. O rapaz fala do cágado a um dos colegas da escola, tentando exibir-se, e promete mostrar-lho. Depois, o rapaz presencia a morte do cágado em água a ferver e todo o seu ódio e ressentimento recalcados contra a mãe vêm ao de cima. Mata-a a meio da noite com a faca da cozinha que ela usara para trinchar o cágado.”

Não posso, claro está, garantir que serei autorizada, pelas normas académicas, a introduzir cágados e facas de cozinha no texto da tese só para enganar a previsibilidade e sensação de dormência que me dão a maioria dos trabalhos de investigação (e não tenho razões para acreditar que serei diferente). Mas posso tentar lembrar-me da bela gargalhada que dei na página catorze desse livro, e procurar que essa memória me impeça de ser demasiado enfadonha.

[A Criação do Suspense, Parte 2]

Apesar de o meu amigo P. me lançar um olhar levemente desaprovador e condescendente de cada vez que falo nisto, tenho para mim há muitos anos que os livros de ficção são tão relevantes para a estruturação do nosso pensamento como os ensaios ou os artigos científicos. Não me refiro apenas àqueles pensamentos que normalmente associamos à nossa ‘vida interior’, emocional ou espiritual; falo de muito mais: encontrei sempre nos romances, nos livros de viagens, nas biografias a possibilidade de pensar sobre uma vastidão de assuntos ‘objectivos’ e foram-me sempre úteis no campo profissional. Se não vejam como a mestre do suspense e do policial sabe tudo sobre gestão cultural:

“Como os boxeurs, podemos começar a enfraquecer depois dos trinta, isto é, já não conseguir continuar com apenas quatro horas de sono e, depois, começamos a refilar por causa dos impostos e a pensar que o objectivo da sociedade é afastar-nos desta profissão. É bom, então, lembrarmo-nos que os artistas existiram e persistiram, como o caracol e o peixe da espinha côncava e outras imutáveis formas de vida orgânica, desde muito antes de se ter pensado na existência de governos.”

É que nem sei se levo isto do doutoramento avante. Valerá a pena?

The company of strangers

Working in the margins of the arts, I have to be thankful for all the debates and conferences I am invited to, and proud of myself to take up most of them, even if time is always so scarce and if many times I lack proper preparation and wisdom. I have explained elsewhere why I keep doing it: I am a believer in the relevance of a public sphere as a fundamental element of democracies, and I do my best to share my ideas, listen to others’, and learn from dissent. I think it is important to be learning all the time. I am not so naif as to believe humanity has a capacity to learn from History, but at a personal level at least we do have memory, and we should act accordingly, I guess. For me that means acknowledging that, in the European and Portuguese recent past, consensus and silence have proved to be not that big of a help for individual freedom, so it is important to look for divergent thought, for the experience of multiple minorities, for the opinions of non-specialists, and outsiders. On top of those reasons to accept every other invitation to chat, there is another one: social media has magnified our comfort bubble to such a formidable extent, that it feels crazy not to test our thinking outside it. The risk of staying inside the bubble (Facebook but also think-alikes) is more than just boredom and self-confirmation: it is also sheer arrogance. That is why I like the company of strangers.
So more or less a month ago Alastair Donald, who works for the Institute of Ideas, invited me for the second time to speak at an event they call “Battle of Ideas”. It runs on a simple format, but one in which people engage more lively and commitedly than I usually see in most conferences. One of the reasons for it, I believe, is the fact that it is totally about the debate itself, the value of collective discussion, and not coreographed projections of the panelists’ statements. This time the debate was around “who and what are the arts for?”. I decided to try and answer that question in the most simple and direct way I could. I grabbed a sheet of paper and wrote down the first five answers that came to my mind. (I focused more on the “what are the arts for” than on the “who”, because I think one follows the other, and the what is more important.) So here are five reasons I think we should keep in mind whenever we discuss this.
What are the arts for?

1. FOR NOTHING.
This is the first and most important reason to keep in mind. Art is, fundamentally, useless. Unless we come to terms with this, we risk repeating this conversation until the end of times. Some artists go as far as to claim the right to uselessness, and that is just about right. If you appreciate art, you should be ready to give the artists the freedom from purpose that they need. And you should ask your government to do the same.

2. FOR REASONS WE DO NOT KNOW YET
I argue that artistic processes have a lot in common with scientific investigation. Both dwell systematically upon the unknown, both depend on the freedom to speculate. Like science, art needs to be able to experiment with no strings attached. It can’t promise to deliver specific, pre-determined results, its only commitment is with rigour and with innovation. Experimental processes eventually lead to great and complete works of art, others….don’t. It is how we value imagination that counts. It is how much we want to live in a world that has a place for those that don’t know the answers, but can make superb questions.

3. FOR PLEASURE
It is more or less the same as for nothing, I guess. It is because it feels good to listen to great music, or because we enjoy fantasizing, or because we are drawn to beauty, or to ugliness and repulse as equally powerful drivers. It is because some people love painting so much they cannot do without painting, or singing, or…. Some people feel so strongly about something, they cannot live without doing it, and some of those people are artists. (This passion for what they do is often used against them, but let’s not deal with that now)

4. FOR MONEY
It can happen that some (very good or very bad ) artists can make money out of their art. They are but a few, but, hey, folks, IT IS OK! Money has been an integral part of our social life for as long as History can recall, so stop trying to pretend that art has nothing to do with it. So next time you hear someone complain about the cost of a theatre ticket, ask them if they get their beef for free.

5. FOR PUBLIC GOOD
This is actually a no-brainer. So much, that it is somewhat unsettling that governments struggle with it. If you need a heart transplant, you are better-off being helped by a surgeon than a poet, right? That is the same reason you shouldn’t ask artists to take responsibility for urban regeneration, or alleviate poverty, or reduce school dropout. Personally, I don’t want a government to fund artistic projects for kids who drop out of school, I need a government who effectively prevents school dropouts. Same goes with poverty.
Let’s take a little longer examining this one, because it is hardly the only reason why governments admit funding the arts for! Dear Prime-Ministers, what is wrong with you? You go on and on about the importance of the arts and culture, and then you want to tie us up to issues that have nothing to do with art and I about which we have little or no competence about. Let’s be clear: it is not that we don’t acknowledge that the arts can make significant contributions to our public and personal life; it is that those are collateral effects, not the reason (most) artists make art for. Sorry for insisting on idiotic comparisons, but I am running out of patience with this one: would you fund a hospital because its building is 19th century architectural heritage? Exactly.
Are we done here? Good, now we can talk about art.

[aquela sensação reconfortante de as acções estarem de acordo com os pensamentos]

Numa altura em que há residências artísticas em todos os armazéns e pastelarias, e que não há centro cultural, cidade ou programação que se preze que não lhes dedique um espaço – e ainda bem! – já seria tempo de discutir com seriedade para que(m) servem, que formatos podem assumir e a que condições de trabalho correspondem efectivamente. Já há muito tempo que reflicto sobre isto, nomeadamente sobre o tremendo impacto que as variáveis tempo e dinheiro têm sobre as condições de criação artística (é fixe poder fazer aqui um link para algumas dessas intervenções em conferências ou textos, porque é uma forma sofisticada de me citar que é igualmente parola, mas o hyperlink disfarça).

Vem isto a propósito da residência que o Greg Wohead*, meio texano, meio londrino, começa depois de amanhã na mala voadora. Vem para o Porto para uma residência de dois meses, enquadrado no Dois por Dois, o programa de residências artísticas internacionais que a mala voadora inicia este ano. É que esta residência, não sendo perfeita, é uma versão muito aproximada do tipo de condições de trabalho que é importante reunir se realmente estivermos interessados em apoiar a dimensão de pesquisa e experimentação de que os processos de produção artística habitualmente dependem.

Argumentei muitas vezes que era importante e urgente considerarmos adequadamente as etapas iniciais do processo artístico (por contraponto a uma cultura viciada na apresentação e subsequente difusão); considerarmo-la mais ou menos da mesma forma que entendemos a pesquisa laboratorial como indissociável do processo de produção de conhecimento científico, e lhe atribuímos recursos e relevância social. Por isso que bom que, apesar de todas as dificuldades e de muitos paradoxos (o mais importante dos quais será o facto de a própria mala voadora nunca ter beneficiado de condições idênticas para o desenvolvimento dos seus próprios projectos) – dizia eu que, que bom que estou agora envolvida na criação do Dois por Dois. Que bom que, numa ou noutra ocasião, podemos fazer as coisas como elas devem ser feitas, quase como se estivesse tudo bem com o apoio às artes em Portugal.

*com o inestimável apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto, no âmbito do programa InResidence.