Sobre municipalização da cultura, seguida de ponto de interrogação*

1. (é uma introdução, os apressadinhos podem pular para o ponto 2)

Esforço-me, na medida das minhas possibilidades e circunstâncias, por contribuir para (quase) todos os debates sobre cultura. Será um esforço inglório, porque reconheço que boa parte do que se passa, não passa na TSF, ou seja, as decisões de política pública, e de política cultural, não decorrem necessariamente das conclusões a que os debates em que a sociedade civil se envolve chegam, ou não chegam. E é também um esforço inglório na medida em que muitas pessoas, em vez de participarem nessas conversas, conversam com os amigos ou comentam nas redes sociais acerca das conversas que – ouviram dizer – outros tiveram. Ainda para mais, participar em debates e plataformas cívicas rouba-nos tempo pessoal, significa trabalhar sem receber, expõe-nos à crítica e implica conviver com pessoas que não nos adoram. Apesar de todas estas evidentes desvantagens, continuo a marcar presença porque acredito mesmo que é importante que os cidadãos ocupem os espaços públicos de discussão, antes que já não haja mais nada para ocupar, ou discutir.

2. A municipalização da cultura é um tema complexo, importante, e está na ordem do dia por uma série de razões. Ao dizer que talvez, porventura, fosse ‘um problema de ricos’ (expressão que o Jornal de Notícias resolveu chamar para o título do seu artigo), quis chamar a atenção para a necessidade de colocarmos este debate em perspectiva, na medida em que, em muitos, demasiados, dos 308 municípios portugueses, a intervenção autárquica em matéria de cultura peca por ausência, e não por excesso. Faltam documentos e estratégias de política cultural local, e faltam recursos. Somos um país desigual, também nisto. Talvez tenha sido a única a formular o soundbyte, mas não fui a única a afirmá-lo: de formas diferentes, Gil Ferreira, Vereador da Cultura de Santa Maria da Feira, e Luís Sousa Ferreira, programador cultural e Director do 23 Milhas, em Ílhavo, entre outros, lembraram-nos que o tema que debatíamos não tem como não ser relacionado com esse outro, que são as deficiências no acesso às actividades de criação, fruição e participação cultural na generalidade do território português. Ter consciência disso não é menorizar a importância do debate sobre a municipalização da cultura em cidades como o Porto ou Lisboa, mas sim ser solidário na enunciação dos problemas que ainda enfrentamos, todos. Foi isto que disse e, estou convencida, foi isso que os participantes no debate ouviram.

3. Neste como noutros debates recentes, parece não haver lugar para a ponderação. Todos procuram encostar-nos a um lado da barricada, ou porque assim ganham aliados, ou porque assim o seu mundinho fica mais simples, mais manejável. É uma chatice (sobretudo para mim), mas continuarei a insistir na possibilidade de participar nas discussões a partir de uma elaboração crítica do problema em análise, e não de clubismos primários. Isto significa que estou plenamente convencida de que é preciso ser muito míope para não reconhecer o trabalho deste executivo na área da cultura, ou do Tiago Guedes no Teatro Municipal do Porto, mas não prescindirei, de modo nenhum, da possibilidade de criticar esse trabalho, ou de discutir em que medida é que esse trabalho corresponde ao único, ou melhor, modelo de intervenção pública em matéria de cultura. Não sei bem a quem convém confundir estas duas coisas, mas começa a esgotar-se-me a paciência para estar permanentemente a tentar fazer pontes quando a maioria só quer lançar granadas, ou manter tudo caladinho e bem-comportado. Irra.

4. Um dos aspectos que referi no debate e que acho que vale a pena ser mais profundamente equacionado (mas não parece ter entusiasmado ninguém) é o facto de o modelo vigente de financiamento da criação artística e da programação cultural, alicerçado nos apoios da Direcção-Geral das Artes, contribuir para a tendência de municipalização da cultura, em vez de a contrariar, na medida em que faz variar o montante dos apoios na razão directa das intenções de co-produção e investimento. Ora, como sabemos, boa parte dos (pouquíssimos) co-produtores em Portugal são as autarquias ou entidades públicas. É uma característica do sistema que é complexa, e encerra algumas intenções meritórias (como a da ‘inscrição’ dos projectos nos territórios em que actuam), mas que não pode ser ignorada neste debate, se queremos ser sérios.

5. No final do debate, disse, e confirmo, que se fosse obrigada a escolher (e só nesse caso!), apostaria sempre muito mais em modelos de política e de gestão cultural que implicam directamente a sociedade civil, em vez de apenas a servirem. E justifiquei-me: estou convencida de que a maior ameaça à actividade cultural hoje não é escassez do financiamento que lhe é dedicado, mas a caducidade e a erosão dos pressupostos que, até agora, têm justificado o investimento público em cultura, e a correspondente legitimação social desse investimento. Dito de outro modo, será a medida em que conseguirmos ser relevantes para os cidadãos que ditará a sobrevivência da cultura enquanto política pública. Para mim, qualquer debate sobre municipalização da cultura devia inscrever-se aqui.

6. Como sei que muitos dos que se interessam por estes temas não estiveram ontem no debate, e ficam depois reféns do que se diz sobre eles, nos jornais ou em fragmentos de conversa, resolvi escrever. Meia hora de serviço público no intervalo das outras tarefas.

Last but not least, p.f. não me chateiem mais com a cena das barricadas, não estou para isso. Se continuarem com dúvidas, leiam de novo.


[1] * A propósito do debate do dia 18 de Fevereiro, no Porto, promovido pela Acesso Cultura. O debate ocorreu em simultâneo em 10 cidades do país. No Porto, o debate foi moderado por Alexandre Matos, e participaram Fátima Alçada, Gil Ferreira e Vânia Rodrigues (!). Francisca Carneiro Fernandes, que também integrava o painel de convidados, não compareceu.

**  Este texto não é um resumo do debate, nem defendo que os pontos que enumerei sejam as âncoras principais desta discussão. Pelo contrário, parece-me que a discussão merece ser aprofundada e expandida. Aqui, porém, limitei-me a clarificar alguns pontos que referi no debate e que vinham mencionados na peça do Jornal de Notícias.

[No rescaldo]

Quando se está há muitos anos a trabalhar no ‘sector’ (essa entidade fantasmagórica), chega-se facilmente a um ponto em que se sabe sempre demais. Sabe-se demais para falar e demais para ficar calado. Fui lendo, comentando e intervindo (não necessariamente aqui). Fico muito aliviada e pessoalmente confortada por ver o Tiago Guedes assumir um erro, coisa rara em directores em funções públicas; fico aliviada, mesmo sabendo que isso não apaga o sucedido, nem explica a evolução meteórica e apaixonada do assunto na cidade. Isso ‘já são outros quinhentos’, como sói dizer-se.

Salvem-nos da direita!!! Salvem-nos da esquerda!!!

No Porto, em 2020, é mais ou menos assim. Depois de, para enterrarmos de vez os anni horribiles de Rui Rio, termos experimentado uma versão atípica de ‘geringonça’, retomar a normalidade democrática parece impossível. A cidade parece meia entorpecida e bipolar, ora ressabiada e furiosa, ora dando vivas e celebrando. A cultura, até pelo lugar de destaque que lhe tem sido dado (não discuto aqui a dimensão porventura táctica desse destaque, o destaque e – sobretudo, o investimento correspondente – são um facto iniludível) é uma das áreas em que esse confronto surdo se vai experimentando. Só que esse confronto, em vez de se traduzir num debate público acerca de alternativas e de exercício do contraditório, consubstancia-se numa série de mini-conspirações e de ‘casos’, uns maiores outros menores, uns justificados, outros francamente óbvios na sua tentativa de aproveitamento político. É ‘poucochinho’, para a segunda cidade do país.

À (para mim) clara inteligência estratégica com que a equipa do actual presidente se propôs dinamizar a cultura, contrapõem-se, naturalmente, outros tantos falhanços e, sobretudo, alguns sinais de tentativa de controlo das vozes críticas que são francamente difíceis de admitir (não me refiro ao texto da Regina Guimarães). Da esquerda, esperava-se que se reorganizasse, compusesse um discurso de intervenção crítica na cidade e começasse, a partir daí, a lutar por tornar clara qual seria a sua alternativa, caso estivesse no poder. Só que o Partido Socialista continua, por um lado, ocupado consigo próprio, e, por outro, notoriamente refém dos compromissos que fez, durante o curto casamento, com as políticas da cidade e com alguns dos seus protagonistas. Sobra o resto da esquerda, claro, que para mim não é despicienda, é aliás o ‘lugar’ onde, provavelmente, mais vezes votei. Mas também aí é difícil encontrar sinais de normalidade e de produção de discurso que supere as trincheiras do costume e não se alimente de historietas.

Eu, que habitualmente me sinto confortável em convívio com híbridos, categorias instáveis, e cruzamentos de vária ordem, tenho tido saudades do tempo em que conseguia dizer quem era a minha malta, do ponto de vista político. Hoje, por muitas razões complexas de mais para enfiar à martelada num post, quem não tem trela partidária (como é o meu caso), nem contrato de trabalho sem termo, nem ouro no banco, tem por vezes dificuldades genuínas em distinguir o essencial do acessório, o verdadeiro do nebuloso, a acção da reacção. A ser verdade que este triste episódio estará encerrado, faço votos para que no Porto, a partir de agora, ardam menos fogueiras e muito mais (ardentes) debates. (Com desculpas pela poética de mercearia.)

Le Grand Guide de Budapest

A house in Budapest. One week away to teach, think, write, wander around holding hands in the cold. Sip coffee and drink wine, as usual, almost always, almost anywhere. I’ve been told that spending lots of time in coffee shops remains one the best ways to get somewhere close to knowing a city, so I plan on doing that. But what if a part of you secretly doesn’t feel like getting to know the city? What if the exacerbated self-consciousness of being part of the ever-growing globalized movement of people gets in the way of your desire to explore? Or what if you have a lot on your mind, a book to finish, doubts about what you are going to say in the classroom tomorrow, what if this is about you? (A trip is always about yourself, in the end, isn’t it?)[1]

I have been sitting here in the living room all afternoon[2]. I’m going through the papers for tomorrow. I’ll speak to artists in the morning, cultural managers in the afternoon, I’ve been told by the promoters. (Intriguing setup.) Once again, arts management and cultural policy it is. My angle: “Swimming in the sea of contradiction: innovative yet conservative?”

PS: No surprise, it is getting more and more difficult to stay afloat through social media’s misdemeanours and dictatorial algorithms. So if for some strange reason you fancy reading this blog once in a while AND you’re not my mother, consider subscribing. Let’s do it the new-old-fashioned way.


[1] At least that’s what Michel Onfray argues in his “Theory of Travel”. (It is not a great book. It’s just ok.)

[2] “Civilization was built upon stopping. Speed is uncivilized and brutal, non-human. One can only build if one stops.” (my rough translation of a superlative writer, Gonçalo M. Tavares).

How to Live

Entre a porra do algoritmo e a delícia do tempo offline, é bem provável que eu não tenha visto as vossas fotos de rabanadas nem a sucessão de famílias felizes que descem dos céus todos os natais (ai, Tolstoi, se tu soubesses…) . Mas isso não significa que não queira contribuir para a caldeirada de fim de ano. Também tenho conselhos de fim de ano para partilhar (e, desta vez, não são bitaites sobre política cultural).

Claro que vocês não precisam disto. Se há coisa que todos, aliás, dispensamos hoje em dia é alguém a sugerir que nova série é “incrível”. Eh pá, tens de ver. Seguindo-se, evidentemente, a enumeração das razões pelas quais o nosso interlocutor acha que temos mesmo de ver. Eu sou bué diferente, como se vê. (Os meus amigos, a quem massacrei as orelhas, sobretudo com Fleabag, são pessoas que percebem o valor da auto-ironia.)

A minha sugestão é que terminem o ano a evitar a neurose colectiva que outras séries, livros, espectáculos e afins se encarregam incessantemente de alimentar. No capítulo ‘séries’, a tendência é mais que evidente. Years and years é um exemplo perfeito (e bem feito). É tudo inteligente e convenientemente pré-apocalíptico, e pelo mesmo preço ficamos de consciência alinhada com os grandes temas da actualidade. Tudo certo, Netflix über alles. Também consumo, embora não inale. Mas é chatíssimo quando consumir cultura e arte é o equivalente requintado de ler a Visão, ou o Monde Diplomatique, vá. A própria expressão ‘consumo’ já está aqui a mais, mas isso fica para outro dia.

A questão, portanto, é a seguinte: e se, de repente, Ambrósio, lhe apetecesse algo? Uma ficção bem amanhada, de imaginação prodigiosa e em que a política está lá – como não? – mas com contradições que nos deixa resolver sozinhos. Esse bombom é Watchmen (HBO) e tem super-heróis, saltos no tempo, e os problemas do homem branco ocidental, of course. São nove horas muito bem passadas.

Caso ainda vos sobre tempo e tenham mesmo vontade de continuar a explorar as misérias do masculino do ocidente, próstata incluída, vejam The Kominsky Method, uma paródia irresistível sobre o envelhecimento que assenta sobretudo nos fabulosos diálogos entre dois portentos, Alan Arkin e Michael Douglas.

Aviso: nada disto é edgy, nada disto fará de vocês pessoas mais cultas.

Lotaria de Natal

Eu era para não falar no Orçamento do Estado para a cultura. Por ter mais que fazer, por ser aborrecido, por estragar o Natal, mas, sobretudo, porque me irrita sobremaneira que o tema do financiamento domine quase totalmente o debate público (whaaat?) sobre cultura. Sempre que centramos os nossos discursos na DG-Coiso, empobrecemos (literalmente). Para além disso, a situação de entrincheiramento radical destas discussões é um fabuloso dissuasor, para mim. Não sei muito mas acho que sei o suficiente para ser incapaz de participar em debates em que só há ‘nós’ e ‘eles’ (ou prós e contras). Mas, lá está, sou um pobre diabo, cedi à tentação. E não foi porque esta semana houve chuva a mais e orçamento a menos. Foi, porque ‘calhou’. Calhou tropeçar numa notícia que anunciava o lançamento de uma “lotaria do património”.

Pelos vistos escapou-me, pois aparentemente a medida já estava prevista no programa eleitoral do PS. E é bem-vinda, porque os recursos públicos não são finitos, e porque, mesmo que a cultura estivesse decentemente financiada através das receitas gerais do Estado (cof, cof), a complementaridade de fontes de financiamento, é sabido, constitui um factor decisivo para a sustentabilidade da área. Só que…

“Só que” parece-me que devíamos questionar esta proposta no sentido de perceber se se trata de uma medida singular, apostada na mobilização cívica para a preservação do património, ou de uma medida-piloto para testar a possibilidade de o financiamento da cultura passar a depender, em parte, das receitas variáveis do jogo. E aí já tenho dúvidas.

“Só que” devíamos estar atentos às fragilidades dos modelos de financiamento baseados na distribuição dos proveitos do jogo (e há muitos países que podemos observar a este respeito), designadamente as questões que recorrentemente se levantam no que diz respeito à sua volatilidade e ao seu virtuosismo.

“Só que” devíamos, no mínimo, procurar saber o que dizem os estudos independentes acerca do perfil dos jogadores em Portugal, e em que medida é que esse perfil é consistente com a diversidade de públicos concretamente servidos pelas actividades desenvolvidas nos elementos patrimoniais a recuperar. Não estou a falar de correspondências lineares. Mas preferia ter a certeza de que não existe nenhuma relação entre a predisposição para jogar (designadamente em lotarias e raspadinhas, incluídas no modelo francês, que esta proposta aparentemente mimetiza) e os baixos rendimentos ou o desemprego. Ou seja, esta proposta não tem só de ser inovadora e eficaz, também tem de provar que não se aproveita (ainda que para fins meritórios) de nenhum tipo de desigualdade social.

(Espero que relembrar a associação do jogo à adição não seja lido como puritanismo. Estou longe dessa manada. A minha lista de pecados é, aliás, actualizada regularmente, e está disponível online neste link)

Por último, são bem-vindas, no meu entender, as propostas e medidas que experimentam, que arriscam novos modelos face a dinâmicas de investimento público que teimam em ficar aquém do necessário. Mas é aqui que introduzo o último “só que”: é que estas medidas eram mais interessantes num contexto em que o próprio Estado fosse o primeiro a aumentar decisivamente o financiamento directo à cultura, traduzindo a sua convicção acerca da importância estrutural das actividades artísticas e culturais num número que não fosse, para usar linguagem política especializada, “poucochinho”. Não sendo o caso, não sei se esta lotaria  não vai ser realmente um jogo de azar: financia a cultura, se calhar.

Apesar disto tudo, é evidente que precisamos de experimentar fórmulas diferenciadas de financiamento da cultura, e de discutir as bases em que assentam as políticas culturais que o justificam, hoje, pelo que não contribuo para o mata-esfola em qualquer medida que o Ministério da Cultura avance. Discuta-se.

(Quer dizer, discutam vocês, eu já adiantei serviço, e agora vou fazer a calda prás rabanadas)

Campos de Colaboração

Hoje, à tardinha, nesta conferência na Culturgest, começo na colaboração e vou por aí fora, de palavra em punho e sem powerpoint, só power. (Gostava que a piada fosse minha, mas não é).

A promessa é analisar a relação entre criação artística e produção, a partir do que ando a investigar, a partir das muitas vozes que escutei, do que penso, e do que pensam outros mais talentosos do que eu.

Teste ao poder de síntese e à acutilância debaixo da nuvem da constipação. Farei o meu melhor, até porque para mau já basta Novembro, a trazer esta chuva e a levar as pessoas generosas e inquietas. Ficamos cá nós, os “cabrões dos vindouros”, a fazer por merecer.

https://www.culturgest.pt/pt/programacao/campos-de-colaboracao/

AS PRODUTORAS

Vem aí UM LIVRO! (assim em maiúsculas para fazer justiça ao meu entusiasmo).

Nos últimos meses tudo o que tenho pensado e escrito tem sido canalizado para diversas instâncias académicas, que têm bastante apurados o controle e a capitalização (voilá!) do conhecimento científico. Mas em seminários, conferências, blogues ou livros, lá se vai arranjando forma de tornar a discussão mais aberta.

Portanto, vem aí um livro. Apesar de ser um projecto com características razoavelmente inéditas em Portugal, será um grão de areia, evidentemente.  “AS PRODUTORAS” tem a pretensão (!) de contribuir para o (re)conhecimento dxs produtorxs e gestorxs a trabalhar nas artes performativas, o mesmo é dizer: procura criar condições documentais para que sejam integrados na história das artes performativas. O lançamento está previsto para Março. Ainda faltam peças, mas vou alinhando os copinhos de aguardente.