Preciso de heróis novos para desejar e destruir

“Um charuto, disse o altruísta, um charuto, meu caro, é coisa que não lhe posso dar. Mas se alguma vez precisar de lume, venha ter comigo à vontade; o meu [charuto] está sempre aceso.”

Karl Kraus, ‘Aforismos’

Sucedem-se os manifestos. Circulam petições e documentos, criam-se e aglutinam-se movimentos. Informais e protocolados, recém-nascidos e históricos, todos procuram convergir, “estar juntxs”, para que o momento de angústia seja sedimento de mudança. Notável e comovente, a capacidade de reunião, de luta, de inventividade e calor humano que surge, justamente, a partir dos esforços dos mais penalizados. Nas últimas semanas sigo, incentivo e registo algumas destas iniciativas e discussões públicas, em modo bipolar: ora orgulhosa e esperançada por integrar um ‘sector’ (pardon my french) que parece encontrar sempre força para resistir, ora céptica acerca das possibilidades reais de transformação. Suponho que muitos estarão oscilando, também, entre estes dois sentimentos, empurrando a esperança e obrigando-a a mais um dia. Mas, para continuar com alento, tem-me faltado um ingrediente decisivo: a enunciação de um desejo radical.

Compreensível e inteligentemente, a esmagadora maioria dos documentos e discursos produzidos pelos agentes que se mobilizaram é de natureza pragmática. Incluem, quase sempre, duas partes: a constatação, alimentada por relatos de natureza estatística e testemunhal, provisórios mas poderosos, e a contestação: reivindicações de justiça e protecção social posteriormente traduzidas em sugestões e exigências de acção por parte do Ministério da Cultura e, menos frequentemente, de outras áreas governativas. A compilação de todas as propostas que já foram, sob alguma forma, dirigidas ao Governo, mesmo que fragmentadas e contraditórias, já constitui, por si só, um contributo deveras significativo que importa valorizar, seja qual for o seu grau de exequibilidade. Combina o conhecimento aturado da realidade que acumularam algumas estruturas organizativas, como os sindicatos ou as plataformas formalizadas, com a ‘força bruta’ das vozes dispersas, mais ou menos politizadas, que a cada dia se acrescentam. Contudo, o extraordinário esforço de todos estes agentes tem um condicionador evidente: a realpolitik. Trata-se de exigir o que se suspeita que pode ser exigido, a um Governo que anunciava o número mágico de 2% para a cultura, “no horizonte da legislatura”, ou seja, convenientemente situados no meio do nevoeiro sebastianista. Ele há-de vir. Num cenário desesperado, o que estes movimentos têm, naturalmente, mais dificuldade ou relutância ponderada em fazer é ‘exigir o impossível’. Por isso, leio os artigos de jornal que se vão publicando, as publicações nas redes sociais de figuras públicas das artes, à procura desse enunciado de exigência radical, à procura de um pensamento livre, consciente do seu poder simbólico, disposto a oferecer o pescoço por uma ideia nova (mesmo que errada!). Constato, decepcionada, que entre o sentimental e o táctico não sobra quase nada.

Por um lado, nas artes e cultura parece ter-se optado por falar exclusivamente em nome da classe profissional, em vez de se aproveitar a circunstância de uma crise sem precedentes para fazer das justas reivindicações uma luta por todas as pessoas vulneráveis, garantindo uma aliança política com os cidadãos que comece imediatamente (ao invés de se projectar apenas nas acções dos ‘serviços educativos’ dos ‘projectos com a comunidade’ e do ‘desenvolvimento de públicos’). Radical? Retórico? Megalómano? É possível. Mas justo, carregado de sonho e irredutibilidade transformadora. Por outro lado, a maioria dos discursos defende, para os problemas de hoje, no mundo estilhaçado e desigual de hoje, soluções… de há trinta anos. Suspira-se pelo ‘modelo francês’, no estatuto da intermitência, recupera-se a racionalidade territorial na estruturante ‘rede de teatros e cineteatros’. É, de facto, como se nunca tivéssemos superado a desilusão de 1995. Em ambos os casos, estamos inevitavelmente amarrados ao presente, sem outro horizonte que não um dia-a-dia ‘melhorzinho’. Não desvalorizo, nem por um instante, os benefícios de tais políticas e iniciativas – limito-me a ansiar por uma atmosfera de debate público em que as mesmas – e as suas eventuais alternativas – fossem mais incisivamente postas em causa. Noutras paragens há indícios diferentes. Em Espanha, por exemplo, alguns movimentos do sector cultural reúnem assinaturas em torno de um “rendimento básico universal e incondicional” que elegem como “a melhor política cultural possível”. Resumo, em tradução livre e tosca, alguns dos seus pontos:

– a ideia de que o rendimento básico universal melhoraria a vida de milhões de pessoas desempregadas, e de milhões de pessoas que sobrevivem com trabalhos exploradores, e também melhoraria a vida da grande maioria das pessoas que dedicam o seu tempo de trabalho a tarefas artísticas e culturais, acima das expectativas que poderíamos supor advir de qualquer medida cultural específica;

– a ideia de que o rendimento básico universal representa um formato de distribuição da riqueza potencialmente mais eficiente do que os sistemas de controle vertical actuais, com isso reduzindo custos administrativos, evitando labirintos burocráticos e estigmas sociais associados aos ‘subsídios’;

– a ideia de que o rendimento básico universal é uma forma de subverter a lógica expansionista e produtivista de mais e mais projectos culturais, inseridos nas dinâmicas de sobreprodução capitalista;

– e, por fim, para mim, a ideia mais firmemente emancipadora: a de que o rendimento básico universal seria a melhor política cultural porque a cultura não se constrói nem se sustém unicamente com o trabalho das pessoas que se dedicam a ela, mas antes depende em todos os seus aspectos de um espectro social que inclui os que habitualmente designamos por ‘público’. “De que nos serviria um sistema cultural que só estivesse ao serviço daqueles que têm tempo, recursos e tranquilidade para ‘consumir cultura’? Não temos outro remédio se não entendermo-nos como interdependentes. Se a vida social não está garantida, a cultura não é viável ou acaba por ser um recurso insolidário e elitista.”

Estes argumentos permanecem, como qualquer experiência inovadora, por confirmar, mas as suas premissas são ousadas e inspiradoras e não deveriam deixar de ser consideradas na discussão das políticas públicas de cultura. Não me refiro, necessariamente, a defender a controversa e complexa proposta do rendimento básico incondicional (da minha parte, careço de conhecimento técnico para o fazer cabalmente), nem de fazer a apologia da retórica inconsequente. Mas não me pareceria mal que surgissem discursos e propostas com maior rasgo, risco, rebeldia (escolham o vosso ‘r’ favorito) que complementassem e alimentassem a valentia dos esforços dos movimentos organizados em torno de mudanças concretas.

Nota: (para a Eduarda Neves): corri as linhas todas e garanto que não usei nem uma vez a palavra “reinventar”. Mas concedo que o texto exala um certo fedor a “re”…. 😉

“O que fazer daqui para trás”

O título foi roubado ao João Fiadeiro; nomeava um espectáculo em que se procuravam “os traços e os rastros para dar início à impossível tarefa de reconstruir o mundo, uma e outra vez.” Não é que eu saiba como se fará isso, nem de perto nem de longe. Limito-me, como todos nós, a pensar, a especular. E procuro fazê-lo a partir de um horizonte optimista, porque cenários deprimentes são sempre mais abundantes (e incrivelmente mais confortáveis, porque quem é pessimista tem sempre alguma razão). Suponho e espero que algumas ideias que já circulavam nas margens – nas margens políticas, académicas, estéticas – possam merecer agora mais atenção. Suponho e espero que de tudo isto emane um imperativo de reconfiguração dos nossos modos de vida em comum. Por isso, tenho vivido com desconforto a aceleração dos últimos dias. Não só o ritmo a que as actualizações noticiosas se sucedem é avassalador, também os apelos para tudo e mais alguma coisa não param. Assina carta, contribui para podcast, festival online, recomendações de filmes e livros, aproveita e escreve, a juntar a um quotidiano pessoal e familiar já desorganizado. Ufa!

Respeito profundamente todos os que se mobilizam para criar conteúdos online, e reinventar práticas artísticas em modo digital (uma área bem significativa e pré-existente, aliás) mas… talvez irmos com um pouco mais de calma, não, malta? A hipótese de que, mesmo que involuntariamente, possamos estar a ‘produtivizar’ a pandemia é suficientemente arrepiante para pelo menos ponderarmos tanta partilha, tanta iniciativa, tanto concerto online, tanto ioga em streaming. (É que não se aguenta!) Pessoas diferentes relacionam-se necessariamente de forma diferente com as crises. E, nesse sentido, todos os contributos genuínos são igualmente válidos, pelo que não é minha intenção desvalorizar os esforços de tantos, apenas complementá-los com outra perspectiva: a de que esta vertigem tem de ser questionada. A urgência que sentimos em reagir – e em nos reposicionarmos, designadamente em termos dos conteúdos e formatos dos nossos projectos – não será, justamente, um sintoma do que, em parte, nos conduziu até aqui?

Não tenho dúvidas de que o que está a passar-se terá impactos extraordinários no nosso futuro, e espero que sim, que a tremenda factura que estamos a pagar nos obrigue a repensar as nossas práticas, os princípios em que assentam e as modalidades de fruição que sugerem. Mas, justamente: a repensar, a pensar mais, a pensar de novo, a pensar melhor, a pensar diferente. E pensar não equivale a reagir, muito menos imediatamente.

Entendo que há coisas, no entanto, que não podem ser adiadas: a luta por auxílio imediato aos mais vulneráveis, em que se incluem os que trabalham nas artes e na cultura de forma precária. Mas, mesmo nessas lutas urgentes, parece-me que é importante, também, que desenhemos um arco do tempo mais largo, e que nos equacionemos sempre na relação com toda a sociedade. As nossas especificidades e o grau de profissionalização que as nossas práticas atingiram não devem confundir-se com tácticas de excepcionalidade, sob pena de falharmos o essencial. É evidente que cabe ao Ministério da Cultura – e a todos os organismos públicos ou publicamente financiados – assumir responsabilidades solidárias imediatas. Mas estou convencida que, a partir de agora, qualquer resposta sectorial será forçosamente uma resposta de curto prazo. Necessária, evidentemente, mas que não só não é prolongável no tempo, como não assegura as condições sociais e políticas que permitirão a reconfiguração dos modelos em que assentam as artes e a cultura. Em lume brando, e aflitos, lá chegaremos.

Mais sobre isto aqui: Against Productivity in a Pandemic

PS eu-eu-eu: O livro “AS PRODUTORAS – Produção e gestão cultural em Portugal” já não poderá ser lançado em Maio, como estava previsto. Neste momento, navegamos à vista. Espero ter notícias entretanto.

Navegar é preciso? Sentidos para a internacionalização da dança

É um convite, sim.

A conferência dura um dia e meio e vai valer a pena. Sou suspeita, claro, mas acho que é urgente uma aproximação ao tema da internacionalização das artes performativas que não se esgote na estafada análise dos ‘circuitos’, nem se reduza à dimensão operacional. Vamos considerar formas alternativas e sustentáveis de actuação; discutir o impacto da tomada de consciência da emergência climática no nosso trabalho e cultura de colaboração, reflectir acerca a dimensão política das rotas traçadas por programadores, produtores e artistas. Só faz sentido se vierem.

Informação e inscrições aqui: https://www.cnb.pt/estudios-victor-cordon-temporada-2019-20/conferencia-encontros-para-o-futuro-iii-evc-2019-20/

Sobre municipalização da cultura, seguida de ponto de interrogação*

1. (é uma introdução, os apressadinhos podem pular para o ponto 2)

Esforço-me, na medida das minhas possibilidades e circunstâncias, por contribuir para (quase) todos os debates sobre cultura. Será um esforço inglório, porque reconheço que boa parte do que se passa, não passa na TSF, ou seja, as decisões de política pública, e de política cultural, não decorrem necessariamente das conclusões a que os debates em que a sociedade civil se envolve chegam, ou não chegam. E é também um esforço inglório na medida em que muitas pessoas, em vez de participarem nessas conversas, conversam com os amigos ou comentam nas redes sociais acerca das conversas que – ouviram dizer – outros tiveram. Ainda para mais, participar em debates e plataformas cívicas rouba-nos tempo pessoal, significa trabalhar sem receber, expõe-nos à crítica e implica conviver com pessoas que não nos adoram. Apesar de todas estas evidentes desvantagens, continuo a marcar presença porque acredito mesmo que é importante que os cidadãos ocupem os espaços públicos de discussão, antes que já não haja mais nada para ocupar, ou discutir.

2. A municipalização da cultura é um tema complexo, importante, e está na ordem do dia por uma série de razões. Ao dizer que talvez, porventura, fosse ‘um problema de ricos’ (expressão que o Jornal de Notícias resolveu chamar para o título do seu artigo), quis chamar a atenção para a necessidade de colocarmos este debate em perspectiva, na medida em que, em muitos, demasiados, dos 308 municípios portugueses, a intervenção autárquica em matéria de cultura peca por ausência, e não por excesso. Faltam documentos e estratégias de política cultural local, e faltam recursos. Somos um país desigual, também nisto. Talvez tenha sido a única a formular o soundbyte, mas não fui a única a afirmá-lo: de formas diferentes, Gil Ferreira, Vereador da Cultura de Santa Maria da Feira, e Luís Sousa Ferreira, programador cultural e Director do 23 Milhas, em Ílhavo, entre outros, lembraram-nos que o tema que debatíamos não tem como não ser relacionado com esse outro, que são as deficiências no acesso às actividades de criação, fruição e participação cultural na generalidade do território português. Ter consciência disso não é menorizar a importância do debate sobre a municipalização da cultura em cidades como o Porto ou Lisboa, mas sim ser solidário na enunciação dos problemas que ainda enfrentamos, todos. Foi isto que disse e, estou convencida, foi isso que os participantes no debate ouviram.

3. Neste como noutros debates recentes, parece não haver lugar para a ponderação. Todos procuram encostar-nos a um lado da barricada, ou porque assim ganham aliados, ou porque assim o seu mundinho fica mais simples, mais manejável. É uma chatice (sobretudo para mim), mas continuarei a insistir na possibilidade de participar nas discussões a partir de uma elaboração crítica do problema em análise, e não de clubismos primários. Isto significa que estou plenamente convencida de que é preciso ser muito míope para não reconhecer o trabalho deste executivo na área da cultura, ou do Tiago Guedes no Teatro Municipal do Porto, mas não prescindirei, de modo nenhum, da possibilidade de criticar esse trabalho, ou de discutir em que medida é que esse trabalho corresponde ao único, ou melhor, modelo de intervenção pública em matéria de cultura. Não sei bem a quem convém confundir estas duas coisas, mas começa a esgotar-se-me a paciência para estar permanentemente a tentar fazer pontes quando a maioria só quer lançar granadas, ou manter tudo caladinho e bem-comportado. Irra.

4. Um dos aspectos que referi no debate e que acho que vale a pena ser mais profundamente equacionado (mas não parece ter entusiasmado ninguém) é o facto de o modelo vigente de financiamento da criação artística e da programação cultural, alicerçado nos apoios da Direcção-Geral das Artes, contribuir para a tendência de municipalização da cultura, em vez de a contrariar, na medida em que faz variar o montante dos apoios na razão directa das intenções de co-produção e investimento. Ora, como sabemos, boa parte dos (pouquíssimos) co-produtores em Portugal são as autarquias ou entidades públicas. É uma característica do sistema que é complexa, e encerra algumas intenções meritórias (como a da ‘inscrição’ dos projectos nos territórios em que actuam), mas que não pode ser ignorada neste debate, se queremos ser sérios.

5. No final do debate, disse, e confirmo, que se fosse obrigada a escolher (e só nesse caso!), apostaria sempre muito mais em modelos de política e de gestão cultural que implicam directamente a sociedade civil, em vez de apenas a servirem. E justifiquei-me: estou convencida de que a maior ameaça à actividade cultural hoje não é escassez do financiamento que lhe é dedicado, mas a caducidade e a erosão dos pressupostos que, até agora, têm justificado o investimento público em cultura, e a correspondente legitimação social desse investimento. Dito de outro modo, será a medida em que conseguirmos ser relevantes para os cidadãos que ditará a sobrevivência da cultura enquanto política pública. Para mim, qualquer debate sobre municipalização da cultura devia inscrever-se aqui.

6. Como sei que muitos dos que se interessam por estes temas não estiveram ontem no debate, e ficam depois reféns do que se diz sobre eles, nos jornais ou em fragmentos de conversa, resolvi escrever. Meia hora de serviço público no intervalo das outras tarefas.

Last but not least, p.f. não me chateiem mais com a cena das barricadas, não estou para isso. Se continuarem com dúvidas, leiam de novo.


[1] * A propósito do debate do dia 18 de Fevereiro, no Porto, promovido pela Acesso Cultura. O debate ocorreu em simultâneo em 10 cidades do país. No Porto, o debate foi moderado por Alexandre Matos, e participaram Fátima Alçada, Gil Ferreira e Vânia Rodrigues (!). Francisca Carneiro Fernandes, que também integrava o painel de convidados, não compareceu.

**  Este texto não é um resumo do debate, nem defendo que os pontos que enumerei sejam as âncoras principais desta discussão. Pelo contrário, parece-me que a discussão merece ser aprofundada e expandida. Aqui, porém, limitei-me a clarificar alguns pontos que referi no debate e que vinham mencionados na peça do Jornal de Notícias.

[No rescaldo]

Quando se está há muitos anos a trabalhar no ‘sector’ (essa entidade fantasmagórica), chega-se facilmente a um ponto em que se sabe sempre demais. Sabe-se demais para falar e demais para ficar calado. Fui lendo, comentando e intervindo (não necessariamente aqui). Fico muito aliviada e pessoalmente confortada por ver o Tiago Guedes assumir um erro, coisa rara em directores em funções públicas; fico aliviada, mesmo sabendo que isso não apaga o sucedido, nem explica a evolução meteórica e apaixonada do assunto na cidade. Isso ‘já são outros quinhentos’, como sói dizer-se.

Salvem-nos da direita!!! Salvem-nos da esquerda!!!

No Porto, em 2020, é mais ou menos assim. Depois de, para enterrarmos de vez os anni horribiles de Rui Rio, termos experimentado uma versão atípica de ‘geringonça’, retomar a normalidade democrática parece impossível. A cidade parece meia entorpecida e bipolar, ora ressabiada e furiosa, ora dando vivas e celebrando. A cultura, até pelo lugar de destaque que lhe tem sido dado (não discuto aqui a dimensão porventura táctica desse destaque, o destaque e – sobretudo, o investimento correspondente – são um facto iniludível) é uma das áreas em que esse confronto surdo se vai experimentando. Só que esse confronto, em vez de se traduzir num debate público acerca de alternativas e de exercício do contraditório, consubstancia-se numa série de mini-conspirações e de ‘casos’, uns maiores outros menores, uns justificados, outros francamente óbvios na sua tentativa de aproveitamento político. É ‘poucochinho’, para a segunda cidade do país.

À (para mim) clara inteligência estratégica com que a equipa do actual presidente se propôs dinamizar a cultura, contrapõem-se, naturalmente, outros tantos falhanços e, sobretudo, alguns sinais de tentativa de controlo das vozes críticas que são francamente difíceis de admitir (não me refiro ao texto da Regina Guimarães). Da esquerda, esperava-se que se reorganizasse, compusesse um discurso de intervenção crítica na cidade e começasse, a partir daí, a lutar por tornar clara qual seria a sua alternativa, caso estivesse no poder. Só que o Partido Socialista continua, por um lado, ocupado consigo próprio, e, por outro, notoriamente refém dos compromissos que fez, durante o curto casamento, com as políticas da cidade e com alguns dos seus protagonistas. Sobra o resto da esquerda, claro, que para mim não é despicienda, é aliás o ‘lugar’ onde, provavelmente, mais vezes votei. Mas também aí é difícil encontrar sinais de normalidade e de produção de discurso que supere as trincheiras do costume e não se alimente de historietas.

Eu, que habitualmente me sinto confortável em convívio com híbridos, categorias instáveis, e cruzamentos de vária ordem, tenho tido saudades do tempo em que conseguia dizer quem era a minha malta, do ponto de vista político. Hoje, por muitas razões complexas de mais para enfiar à martelada num post, quem não tem trela partidária (como é o meu caso), nem contrato de trabalho sem termo, nem ouro no banco, tem por vezes dificuldades genuínas em distinguir o essencial do acessório, o verdadeiro do nebuloso, a acção da reacção. A ser verdade que este triste episódio estará encerrado, faço votos para que no Porto, a partir de agora, ardam menos fogueiras e muito mais (ardentes) debates. (Com desculpas pela poética de mercearia.)

Le Grand Guide de Budapest

A house in Budapest. One week away to teach, think, write, wander around holding hands in the cold. Sip coffee and drink wine, as usual, almost always, almost anywhere. I’ve been told that spending lots of time in coffee shops remains one the best ways to get somewhere close to knowing a city, so I plan on doing that. But what if a part of you secretly doesn’t feel like getting to know the city? What if the exacerbated self-consciousness of being part of the ever-growing globalized movement of people gets in the way of your desire to explore? Or what if you have a lot on your mind, a book to finish, doubts about what you are going to say in the classroom tomorrow, what if this is about you? (A trip is always about yourself, in the end, isn’t it?)[1]

I have been sitting here in the living room all afternoon[2]. I’m going through the papers for tomorrow. I’ll speak to artists in the morning, cultural managers in the afternoon, I’ve been told by the promoters. (Intriguing setup.) Once again, arts management and cultural policy it is. My angle: “Swimming in the sea of contradiction: innovative yet conservative?”

PS: No surprise, it is getting more and more difficult to stay afloat through social media’s misdemeanours and dictatorial algorithms. So if for some strange reason you fancy reading this blog once in a while AND you’re not my mother, consider subscribing. Let’s do it the new-old-fashioned way.


[1] At least that’s what Michel Onfray argues in his “Theory of Travel”. (It is not a great book. It’s just ok.)

[2] “Civilization was built upon stopping. Speed is uncivilized and brutal, non-human. One can only build if one stops.” (my rough translation of a superlative writer, Gonçalo M. Tavares).

How to Live

Entre a porra do algoritmo e a delícia do tempo offline, é bem provável que eu não tenha visto as vossas fotos de rabanadas nem a sucessão de famílias felizes que descem dos céus todos os natais (ai, Tolstoi, se tu soubesses…) . Mas isso não significa que não queira contribuir para a caldeirada de fim de ano. Também tenho conselhos de fim de ano para partilhar (e, desta vez, não são bitaites sobre política cultural).

Claro que vocês não precisam disto. Se há coisa que todos, aliás, dispensamos hoje em dia é alguém a sugerir que nova série é “incrível”. Eh pá, tens de ver. Seguindo-se, evidentemente, a enumeração das razões pelas quais o nosso interlocutor acha que temos mesmo de ver. Eu sou bué diferente, como se vê. (Os meus amigos, a quem massacrei as orelhas, sobretudo com Fleabag, são pessoas que percebem o valor da auto-ironia.)

A minha sugestão é que terminem o ano a evitar a neurose colectiva que outras séries, livros, espectáculos e afins se encarregam incessantemente de alimentar. No capítulo ‘séries’, a tendência é mais que evidente. Years and years é um exemplo perfeito (e bem feito). É tudo inteligente e convenientemente pré-apocalíptico, e pelo mesmo preço ficamos de consciência alinhada com os grandes temas da actualidade. Tudo certo, Netflix über alles. Também consumo, embora não inale. Mas é chatíssimo quando consumir cultura e arte é o equivalente requintado de ler a Visão, ou o Monde Diplomatique, vá. A própria expressão ‘consumo’ já está aqui a mais, mas isso fica para outro dia.

A questão, portanto, é a seguinte: e se, de repente, Ambrósio, lhe apetecesse algo? Uma ficção bem amanhada, de imaginação prodigiosa e em que a política está lá – como não? – mas com contradições que nos deixa resolver sozinhos. Esse bombom é Watchmen (HBO) e tem super-heróis, saltos no tempo, e os problemas do homem branco ocidental, of course. São nove horas muito bem passadas.

Caso ainda vos sobre tempo e tenham mesmo vontade de continuar a explorar as misérias do masculino do ocidente, próstata incluída, vejam The Kominsky Method, uma paródia irresistível sobre o envelhecimento que assenta sobretudo nos fabulosos diálogos entre dois portentos, Alan Arkin e Michael Douglas.

Aviso: nada disto é edgy, nada disto fará de vocês pessoas mais cultas.