São rosas, senhor, são rosas.

Há tempos aceitei um convite estranho, vindo da ‘Academia de Política Apartidária’. Não sendo, efectivamente, apartidária – nem especialmente fã do discurso anti-partidos, que me parece preso num loop retórico inconsequente – aceitei participar porque o tema que queriam abordar (o da ‘precariedade’ nas profissões artísticas) se situava precisamente na intersecção entre a minha vida profissional – a gestão cultural – e as minhas convicções cívicas: que colocam o exercício do pensamento e o debate público no centro da experiência individual de cidadania. E aceitei-o apesar da pouca antecedência que irremediavelmente condicionou a minha participação. Mencionar a pouca antecedência do convite não é uma forma velada de criticar a organização (não seria capaz de tal deselegância), nem de me desculpar pela insuficiência da minha intervenção: antes uma constatação de que o ‘tempo comprimido’ em que vivemos, em que eu vivo, também é um resultado directo da precarização das nossas condições de vida e de trabalho, de projecto em projecto, de reunião em reunião, numa tangencial arriscada que diminui a nossa capacidade de foco, de concentração, a nossa disponibilidade para uma preparação exigente das tarefas e – importantemente – a nossa disponibilidade para interromper o quotidiano frenético para partilhar, em público, uma conversa.

A minha intervenção (na altura, sendo o formato de debate público, procurei sobretudo lançar pontes para a conversa) baseou-se em três pressupostos:

  • O da contextualização da ‘precariedade dos artistas’ no quadro mais alargado – e dominante – da precariedade – isto é, um convite a que considerássemos o quadro social e económico em que todos trabalhamos hoje, antes de analisarmos a eventual especificidade da precariedade no sector artístico e cultural; E o da contextualização também da precaridade dos ‘artistas’ no tecido cultural: e as possíveis relações entre a precariedade dos profissionais da cultura e das artes e a precariedade das instituições e organizações que as promovem…
  • A atenção à linguagem, propondo que se fizesse a anatomia de algumas expressões como ‘talento’, ‘estatuto’, ‘utilidade’, ‘compromisso’, ‘indústrias criativas’…
  • O da problematização, ao invés da denúncia. Não porque não me identifique com uma postura combativa, mas porque a falência das formas de combate à precariedade é visível; temos, portanto, a obrigação de superar os formatos ultrapassados ou simplesmente falhados, de lutar pela justiça e pelo progresso social – e isso só acontece com a progressão das ideias – por isso é que acredito é tão importante uma palavra como uma pistola.

Sou optimista por estupidez natural, e por falta de tempo e inclinação para elaborar na tragédia – entusiasmo-me mais do que me desiludo. Mas, a cada dia que passa, tenho mais dificuldades em olhar para a precariedade predominante neste sector (o tal que é a vanguarda, a ‘cola’ social, gera crescimento económico e anima ‘bairros criativos’)  sem reconhecer os gigantescos buracos argumentativos que sustentam politicamente a sua agenda. Nas vésperas de eleições legislativas em que estão em jogo, mais evidentemente do que nunca, as nossas vidas – mais do que discutir se é acerca do contemporâneo, ou do patrimonial, ou se se constrói mais um centro de artes ou um museu (em Lisboa, claro) – who gives a fuck? – seria importante acordarmos nisto, só nisto: é preciso MAIS DINHEIRO, meus senhores.

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