SIZE MATTERS

Terminou “Uma Família Inglesa”!

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Esta é a segunda reunião de família que fazemos na mala voadora.porto. Quando decidimos organizar a primeira edição de Uma Família Inglesa já suspeitávamos que este viria a ser um sítio onde queremos estar: o sítio onde juntamos excelentes performers para apresentar espetáculos inéditos no Porto (alguns em Portugal) e onde ensaiamos ligações cada vez mais estreitas entre o nosso histórico enquanto companhia de teatro e o micro-projecto de programação que é a malavoadora.porto. Na verdade, usamos o título do aborrecido Júlio Dinis apenas porque já estava feito e não era preciso inventar um novo: nem família, nem inglesa, nem género, nem pátria. Esta família inglesa é mais uma aliança de artistas que trabalham com artistas que admiram artistas, absolutamente comprometidos com o teatro e a dramaturgia (evitemos dizer “contemporâneos” porque a necessidade dessa adjetivação é muito mau sinal).
Mas esta aliança de cúmplices tem, igualmente, implicações do ponto de vista da construção da programação – implicações que não queremos deixar de referir. Temos vindo a experimentar, desde 2014, a partir da Rua do Almada no Porto, um projeto de programação que dialoga com o histórico da companhia de teatro que o protagoniza. Ainda que com iniludíveis fragilidades financeiras, a malavoadora.porto tem constituído – parece-nos – uma experiência que pode ser interessante para pensar sobre alguns contornos do que é “programar”.
A malavoadora.porto não é compatível com euforias festivaleiras nem com certas ambições institucionais. Procura tornar claro o papel imprescindível dos espaços de apresentação independentes. Bate-se pela importância das salas pequenas, em que as possibilidades de uma proposta não morrem no altar dos números de públicos. Confia tudo nos artistas e nas artes todas. Não duvida de que as imperfeições de quem não acumulou experiência são mais estimulantes do que os produtos “otimizados”. Não se preocupa com definições disciplinares debaixo das quais arruma a sua divulgação. Dificilmente tem a atenção de críticos. Tal como os espetáculos da mala voadora, não reflete uma fórmula ou um posicionamento específico.
Numa altura em que o papel dos programadores se encontra em crise – em crise no bom sentido, ou seja, sujeito a um reequacionamento – parece-nos fazer sentido olhar para toda esta fragilidade. Mais do que a crónica da tão anunciada morte do programador-autor, podemos contribuir para uma discussão sobre as possíveis reconfigurações a que esta transformação dará lugar. Claro que é possível (e, em boa medida, certíssimo) lamentar a rarefacção do poder de um conjunto de programadores “cultos e livres” que se esforçavam por tornar o mundo inteligível, por abrir caminhos de descoberta pessoal dos quais todos somos devedores. Mas agora, face à implacável EXCELização das programações dos grandes teatros (ou do mundo), talvez a fragilidade tenha um papel a cumprir que, não sendo exatamente novo, parece tornar-se mais necessário. E aqui há um dado fundamental: os projetos de fragilidade só são viáveis no longo prazo – o mesmo tempo que demorará o desejado caminho do sistema de programação da cidade do Porto até ao “plural”, até ao “independente”, até ao “cosmopolita”.

texto publicado no programa “Uma Família Inglesa”, malavoadora.porto.7

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