[aquela sensação reconfortante de as acções estarem de acordo com os pensamentos]

Numa altura em que há residências artísticas em todos os armazéns e pastelarias, e que não há centro cultural, cidade ou programação que se preze que não lhes dedique um espaço – e ainda bem! – já seria tempo de discutir com seriedade para que(m) servem, que formatos podem assumir e a que condições de trabalho correspondem efectivamente. Já há muito tempo que reflicto sobre isto, nomeadamente sobre o tremendo impacto que as variáveis tempo e dinheiro têm sobre as condições de criação artística (é fixe poder fazer aqui um link para algumas dessas intervenções em conferências ou textos, porque é uma forma sofisticada de me citar que é igualmente parola, mas o hyperlink disfarça).

Vem isto a propósito da residência que o Greg Wohead*, meio texano, meio londrino, começa depois de amanhã na mala voadora. Vem para o Porto para uma residência de dois meses, enquadrado no Dois por Dois, o programa de residências artísticas internacionais que a mala voadora inicia este ano. É que esta residência, não sendo perfeita, é uma versão muito aproximada do tipo de condições de trabalho que é importante reunir se realmente estivermos interessados em apoiar a dimensão de pesquisa e experimentação de que os processos de produção artística habitualmente dependem.

Argumentei muitas vezes que era importante e urgente considerarmos adequadamente as etapas iniciais do processo artístico (por contraponto a uma cultura viciada na apresentação e subsequente difusão); considerarmo-la mais ou menos da mesma forma que entendemos a pesquisa laboratorial como indissociável do processo de produção de conhecimento científico, e lhe atribuímos recursos e relevância social. Por isso que bom que, apesar de todas as dificuldades e de muitos paradoxos (o mais importante dos quais será o facto de a própria mala voadora nunca ter beneficiado de condições idênticas para o desenvolvimento dos seus próprios projectos) – dizia eu que, que bom que estou agora envolvida na criação do Dois por Dois. Que bom que, numa ou noutra ocasião, podemos fazer as coisas como elas devem ser feitas, quase como se estivesse tudo bem com o apoio às artes em Portugal.

*com o inestimável apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto, no âmbito do programa InResidence.

livrinho de boas maneiras para autarcas

O que tem esta entrevista à Catarina Vaz Pinto, tão simples, de excepcional? Para mim: a determinação serena de um percurso ininterrupto ao serviço da cultura, a justa articulação entre política e gestão cultural, o apreço pela intervenção pública fundamentada, isto é, a noção de que é tão importante esclarecer as convicções políticas que orientam a acção como fazê-lo incorporando informação e reflexão independente e especializada. Só isto já dava um livrinho de boas maneiras para autarcas com o pelouro da cultura. Um ponto de discórdia, pelo menos: percebo bem a rejeição da ‘fulanização’ do cargo de vereador/a da cultura (em tempos de populismo abundante agradece-se o desapego), mas diz-me a experiência que a cultura (entendida sectorial ou transversalmente, façam as vossas escolhas) ainda carece muitíssimo de protagonistas que afirmem positivamente a relevância da cultura e das artes enquanto domínio de política pública. Ora essa afirmação, gostemos ou não, faz-se sobretudo no campo da política, e não apenas da demonstração de competência técnica. Há inúmeros Presidentes de Câmara (para não dizer vereadores da cultura…), por esse país fora, para usar linguagem de auto-estrada, para quem o Pelouro da Cultura, ainda que instrumentalmente valioso, é politicamente irrelevante. Não o admitirão, porque é politicamente incorrecto, claro; a ‘valorização da cultura’ entrou há muito no jargão oco do senso comum, acompanhada por uma tomatada incapaz de distinguir ‘arte’ e ‘cultura’. O que, em termos do senso comum, dá imenso jeito, como se sabe.

É por isso que entendo que uma intervenção inteligente e discreta deveria bastar-nos, de facto, mas miseravelmente ainda estamos precisados de que o pensamento progressista e defensor das artes não se coíba de se afirmar politicamente.