A Criação do Suspense

Um dos primeiros livros que resolvi ler logo após ter decidido fazer o doutoramento foi “A Criação do Suspense”, da Patricia Highsmith. O meu fanatismo pelos livros dela amornou depois da adolescência, altura em que li tudo o que ela publicava, mas fiquei intrigada com este, em que ela supostamente ‘desvenda o processo de criação dos seus personagens e dos enredos em que se movimentam’. É um livrinho como deve ser (pese embora uma tradução discutível), com capa do Jorge Colombo, tamanho certo, letras gordas, com capítulos fabulosamente titulados. Vou voltar a ele muitas vezes, até porque tenho um projecto secreto de copiar umas partes, se me sentir desesperada.

“Os criminosos são dramaticamente interessantes porque, pelo menos durante algum tempo, são activos, livres de espírito e não se ajoelham perante ninguém.”

Pareceu-me logo evidente que para sobreviver à empreitada de investigação eu teria, sobretudo, de garantir que era capaz de divertir-me enquanto escrevia; igualmente, não ficaria satisfeita comigo mesma se aborrecesse de morte quem viesse a ler-me; e estava seguramente interessada em combater o medo do tédio metodológico com uma estratégia de auto-sabotagem que me mantivesse entretida. Acabei por encontrar na deliciosa história do cágado, que a Patricia Highsmith inclui neste livro, um ponto de referência que esperava que me viesse a ser útil.

“Uma noite em casa de alguém, estava a folhear um livro de cozinha e vi uma receita horrorosa para fazer um guisado de cágado. A receita para sopa de tartaruga é menos horrenda, e, pelo menos, começa-se o trabalho esperando que a tartaruga ponha a cabeça de fora, para depois a decapitar com uma faca afiada. Os leitores que achem que os livros de suspense se estão a tornar insípidos, talvez gostassem de conhecer certas partes dos livros de cozinha que têm a ver com os nossos amigos de penas e conchas. Uma dona de casa precisa de ter um coração de pedra para ler estas receitas. Quanto mais para as executar! O método para matar um cágado é cozê-lo vivo. A palavra matar não era usada, nem tinha de o ser. Que é que podia sobreviver à água a ferver? Mal acabei de ler isto, a história do rapazinho atormentado voltou-me ao espírito. Faria a história girar à volta de um cágado. A mãe traz para casa um cágado para fazer um guisado. Um cágado que o rapaz inicialmente pensa ser um animal de estimação para ele. O rapaz fala do cágado a um dos colegas da escola, tentando exibir-se, e promete mostrar-lho. Depois, o rapaz presencia a morte do cágado em água a ferver e todo o seu ódio e ressentimento recalcados contra a mãe vêm ao de cima. Mata-a a meio da noite com a faca da cozinha que ela usara para trinchar o cágado.”

Não posso, claro está, garantir que serei autorizada, pelas normas académicas, a introduzir cágados e facas de cozinha no texto da tese só para enganar a previsibilidade e sensação de dormência que me dão a maioria dos trabalhos de investigação (e não tenho razões para acreditar que serei diferente). Mas posso tentar lembrar-me da bela gargalhada que dei na página catorze desse livro, e procurar que essa memória me impeça de ser demasiado enfadonha.

[A Criação do Suspense, Parte 2]

Apesar de o meu amigo P. me lançar um olhar levemente desaprovador e condescendente de cada vez que falo nisto, tenho para mim há muitos anos que os livros de ficção são tão relevantes para a estruturação do nosso pensamento como os ensaios ou os artigos científicos. Não me refiro apenas àqueles pensamentos que normalmente associamos à nossa ‘vida interior’, emocional ou espiritual; falo de muito mais: encontrei sempre nos romances, nos livros de viagens, nas biografias a possibilidade de pensar sobre uma vastidão de assuntos ‘objectivos’ e foram-me sempre úteis no campo profissional. Se não vejam como a mestre do suspense e do policial sabe tudo sobre gestão cultural:

“Como os boxeurs, podemos começar a enfraquecer depois dos trinta, isto é, já não conseguir continuar com apenas quatro horas de sono e, depois, começamos a refilar por causa dos impostos e a pensar que o objectivo da sociedade é afastar-nos desta profissão. É bom, então, lembrarmo-nos que os artistas existiram e persistiram, como o caracol e o peixe da espinha côncava e outras imutáveis formas de vida orgânica, desde muito antes de se ter pensado na existência de governos.”

É que nem sei se levo isto do doutoramento avante. Valerá a pena?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s