Lotaria de Natal

Eu era para não falar no Orçamento do Estado para a cultura. Por ter mais que fazer, por ser aborrecido, por estragar o Natal, mas, sobretudo, porque me irrita sobremaneira que o tema do financiamento domine quase totalmente o debate público (whaaat?) sobre cultura. Sempre que centramos os nossos discursos na DG-Coiso, empobrecemos (literalmente). Para além disso, a situação de entrincheiramento radical destas discussões é um fabuloso dissuasor, para mim. Não sei muito mas acho que sei o suficiente para ser incapaz de participar em debates em que só há ‘nós’ e ‘eles’ (ou prós e contras). Mas, lá está, sou um pobre diabo, cedi à tentação. E não foi porque esta semana houve chuva a mais e orçamento a menos. Foi, porque ‘calhou’. Calhou tropeçar numa notícia que anunciava o lançamento de uma “lotaria do património”.

Pelos vistos escapou-me, pois aparentemente a medida já estava prevista no programa eleitoral do PS. E é bem-vinda, porque os recursos públicos não são finitos, e porque, mesmo que a cultura estivesse decentemente financiada através das receitas gerais do Estado (cof, cof), a complementaridade de fontes de financiamento, é sabido, constitui um factor decisivo para a sustentabilidade da área. Só que…

“Só que” parece-me que devíamos questionar esta proposta no sentido de perceber se se trata de uma medida singular, apostada na mobilização cívica para a preservação do património, ou de uma medida-piloto para testar a possibilidade de o financiamento da cultura passar a depender, em parte, das receitas variáveis do jogo. E aí já tenho dúvidas.

“Só que” devíamos estar atentos às fragilidades dos modelos de financiamento baseados na distribuição dos proveitos do jogo (e há muitos países que podemos observar a este respeito), designadamente as questões que recorrentemente se levantam no que diz respeito à sua volatilidade e ao seu virtuosismo.

“Só que” devíamos, no mínimo, procurar saber o que dizem os estudos independentes acerca do perfil dos jogadores em Portugal, e em que medida é que esse perfil é consistente com a diversidade de públicos concretamente servidos pelas actividades desenvolvidas nos elementos patrimoniais a recuperar. Não estou a falar de correspondências lineares. Mas preferia ter a certeza de que não existe nenhuma relação entre a predisposição para jogar (designadamente em lotarias e raspadinhas, incluídas no modelo francês, que esta proposta aparentemente mimetiza) e os baixos rendimentos ou o desemprego. Ou seja, esta proposta não tem só de ser inovadora e eficaz, também tem de provar que não se aproveita (ainda que para fins meritórios) de nenhum tipo de desigualdade social.

(Espero que relembrar a associação do jogo à adição não seja lido como puritanismo. Estou longe dessa manada. A minha lista de pecados é, aliás, actualizada regularmente, e está disponível online neste link)

Por último, são bem-vindas, no meu entender, as propostas e medidas que experimentam, que arriscam novos modelos face a dinâmicas de investimento público que teimam em ficar aquém do necessário. Mas é aqui que introduzo o último “só que”: é que estas medidas eram mais interessantes num contexto em que o próprio Estado fosse o primeiro a aumentar decisivamente o financiamento directo à cultura, traduzindo a sua convicção acerca da importância estrutural das actividades artísticas e culturais num número que não fosse, para usar linguagem política especializada, “poucochinho”. Não sendo o caso, não sei se esta lotaria  não vai ser realmente um jogo de azar: financia a cultura, se calhar.

Apesar disto tudo, é evidente que precisamos de experimentar fórmulas diferenciadas de financiamento da cultura, e de discutir as bases em que assentam as políticas culturais que o justificam, hoje, pelo que não contribuo para o mata-esfola em qualquer medida que o Ministério da Cultura avance. Discuta-se.

(Quer dizer, discutam vocês, eu já adiantei serviço, e agora vou fazer a calda prás rabanadas)

Campos de Colaboração

Hoje, à tardinha, nesta conferência na Culturgest, começo na colaboração e vou por aí fora, de palavra em punho e sem powerpoint, só power. (Gostava que a piada fosse minha, mas não é).

A promessa é analisar a relação entre criação artística e produção, a partir do que ando a investigar, a partir das muitas vozes que escutei, do que penso, e do que pensam outros mais talentosos do que eu.

Teste ao poder de síntese e à acutilância debaixo da nuvem da constipação. Farei o meu melhor, até porque para mau já basta Novembro, a trazer esta chuva e a levar as pessoas generosas e inquietas. Ficamos cá nós, os “cabrões dos vindouros”, a fazer por merecer.

https://www.culturgest.pt/pt/programacao/campos-de-colaboracao/

AS PRODUTORAS

Vem aí UM LIVRO! (assim em maiúsculas para fazer justiça ao meu entusiasmo).

Nos últimos meses tudo o que tenho pensado e escrito tem sido canalizado para diversas instâncias académicas, que têm bastante apurados o controle e a capitalização (voilá!) do conhecimento científico. Mas em seminários, conferências, blogues ou livros, lá se vai arranjando forma de tornar a discussão mais aberta.

Portanto, vem aí um livro. Apesar de ser um projecto com características razoavelmente inéditas em Portugal, será um grão de areia, evidentemente.  “AS PRODUTORAS” tem a pretensão (!) de contribuir para o (re)conhecimento dxs produtorxs e gestorxs a trabalhar nas artes performativas, o mesmo é dizer: procura criar condições documentais para que sejam integrados na história das artes performativas. O lançamento está previsto para Março. Ainda faltam peças, mas vou alinhando os copinhos de aguardente.

Ch-ch-ch-ch-changes

Image taken from the Rekto.Verso article quoted below.

Every time I thought I’d got it made
It seemed the taste was not so sweet

David Bowie

escrevi e falei sobre isto noutros momentos e contextos, mas esta é uma conversa que começou há pouco e ainda precisa de muitos serões e de muitas transformações antes de se esgotar. É um tema que motivou, em grande medida, a minha decisão de parar temporariamente de trabalhar e que ocupa o centro da investigação a que me dedico actualmente. O que fazer com a ideia e a prática de gestão cultural que herdámos do final do século XX e a partir da qual desenhámos e conduzimos os nossos projectos? Como foi exactamente que nós – os artistas e os que com eles trabalham – sucumbimos à ideologia do crescimento e do sucesso? E agora, que já sabemos?

Ando ocupada a tentar responder a estas interrogações – e a lidar com a crise de identidade que provocam. Na semana passada este artigo teve alguma circulação nas redes sociais em Portugal (bom, pelo menos na minha bolha), o que pode querer dizer que há mais gente a querer ter esta conversa. Que bom. Se vos escapou o artigo, convido-vos a lê-lo agora. Tenho pena do título algo infeliz, que revela um entendimento passadista do que pode ser um museu (contrapondo-o a um centro de artes ‘dinâmico’), e é indicativo das trincheiras disciplinares em que continuamos enfiados. Mas o essencial da leitura é mais do que pertinente. Diz a Esther: “There is a great desire for an alternative.” Roger that.

How is this enough? Rethinking cultural management


“According to Jonathan, democracy requires slower decision-making. We have the right to hesitate, compare alternatives, reflect; and then decide. This makes everything slower.
Look, Jonathan told me – both of us still sitting in Washington’s lovely West Potomac Park – decision-making is incredibly fast in dictatorships. Without deviations or alternatives, everything is a sprint, said Jonathan.
It is necessary to put crossroads before people, says Jonathan. That is democracy.”
Gonçalo M. Tavares

Whenever I attend conferences or forums that gather many arts professionals, I ride the usual roller-coaster: one moment I’m thinking it’s-always-the-same-conversations-among-the-same- people and the next I’m having a breakthrough on a set of ideas or stumbling into an exciting project or person. Reshape Forum[1] in Lublin was no exception. There were moments I feared to be dragged into the perpetual spiral of complaints that hovers over these meetings rendering them completely useless. There were moments when I’d rather just eat my lunch instead of networking but still managed to chew and say something vaguely intelligent at the same time. On balance, flying the 3500 Km was well worth it this time. We heard some off-topic talks on futurism and even had the chance of interweaving the history of hope with that of religion thereby challenging many unquestioned assumptions that make us continuously look for …betterment? Not all of them were inspirational to me, but I did admire the gesture of inviting us to engage with other lines of reasoning, and to drift away slightly from the topics of our reunion, before our minds got to working in their usual professional/sectoral focused mode. It seemed pretty consistent that a project that aims to fundamentally ‘reshape’ so many features of the arts and culture sector was starting off by refusing the sovereignty of pragmatic approaches and by ditching linear thinking. I quote the excellent book by Hesters (2019) that Joris Janssens kindly offered me: “We cannot solve problems by using the same kind of thinking we used when we created them. (…) Strategizing is about more than finding the right technical solution. System change requires changing the way we look at the world and behave within it (…).”

On the second day, by the time I got to the Long Table I was supposed to make a contribution to – the one of ‘Fair Governance Models’, my head was spinning fast. I took it as a personal task to honour the experimental aspect of Reshape, and was keen on repeating the mantra: the bolder we are, the farther we get. I tried to channel the energy of my personal frustrations towards concrete proposals that this project could take up. Having been invited to do some of the initial talking, I was the first one walking down the avenue from frustration to transformation.

Working either as an external consultant or as in-house arts manager, I have always been involved with strategic thinking and planning, and helped devise and develop many organisations’ mission and work models. I have always been attracted to the ‘reverse’ of institutions, to examining the insides and questioning their core values and strategy. I have actually made an apparently successful career out of my alleged ability to help art organisations figure themselves out. But truth be told I was always slightly frustrated with the restricted scope of the change effectively implemented. After so many discussions, and envisaging so many different possibilities, the question for me was: how is this enough? Why does it seem to be enough for arts and culture organisations to come across as innovative without hardly ever actually innovating? Because let’s face it: innovating implies taking risks, and taking risks has become something that we avoid more and more, out of the politically correctness atmosphere or out of self-preservation instincts in a time of backpedalling of public funding for culture.

We are afraid of taking risks, as much as we are trapped in narratives of our own success. Our festivals are always incredible, the report always tells that the project went just great, we hire DJ’s to throw a party after a book launch every two weeks because we are cool and informal and open-minded – but are we really? These narratives of success are convenient for political support – which is arguably understandable if your funding ecology is unreliable (and almost everyone can claim to be in that position). As a director or a manager, you make decisions that ensure the financial sustainability of the organization, that is, you make sure you stay reliable for future public or private investment. But while this is justifiable, it is not necessarily the best we can do for the arts in the long term. Namely because it means our attention is always focused on those who fund us, not those whom we serve. Think of the all the meetings you hold, think about how your working time is used in terms of your different constituencies and you’ll reach the same conclusion I did. And I think that is happening in public institutions and among independent performing arts. It is the status quo.

Also, I was often confronted with huge contradictions between a politically-charged, ‘progressive’ public artistic discourse and internal work practices that offered no resistance to capitalist abuse. I became acutely aware of and challenged by the persistence of conservative aspects of cultural work: highly hierarchical, departmentalized, closed, fearful of innovation, self-exploitative. These traits are oftentimes not easily detectable:

(1) first off, because of the ‘passion mantra’, that we perpetuate ourselves as committed practitioners, by repeatedly putting in extra hours, by failing to preserve healthy boundaries between private life and work life and many times failing our family and friends, and ourselves, because of the deadline, the premiere, because of that special project. This is intrinsically connected with fair governance, I think, because as long as we keep doing it – and by we I mean senior practitioners with power, cultural managers, directors – we are condoning a system largely based on self-exploitation. So my first question would be: what can we do to take this seriously? What can we do in each of our organisations that can begin to change the work pattern of the arts?

But the passion mantra is not the only problem we need to address.

It is a difficult case to make [that art organisations work too often in a hierarchical, departmentalized, closed way and are generally fearful of innovation] also

 (2) because artists and cultural workers are intellectually aware of what’s acceptable or not to say in public, so, for instance, everyone in the arts will describe their work environment and ethos as highly collaborative. But many people who work in those same organisations will tell you – off-record – that it is not quite so. One of the things that currently interest me is to investigate to what extent – if any – has the explosion of collaborative practices in the field of artistic creation influenced the way art institutions work and the organizational models they adopt. If it can be said that the expansion of participatory practices in the arts can be partially explained as an exercise to resist neoliberal attempts to reduce art to consumption, as well as a yearning for social transformation based on an ethical stand, it is, therefore, legitimate to ask to what extent – if any – were the overall work practices actually affected by that trend. So you have to look closer: that an organisation runs a comprehensive outreach programme does not necessarily mean that its global governance is majorly influenced by a participatory ethos.

Criticizing departmentalization is also tricky: eventually you will hear about specialisation and professionalism. You’d want a press officer to deal with the press of course, we’re not amateurs. And we hold team meetings every Wednesday! So arguing – as I do – that we need to keep the professional, specialized workforce running evidently – but at the same time we need to figure out how to work together in a way that does not resemble corporate structures is very difficult. I dare you to make this exercise – it works in Portugal at least: close your eye and visualize the theatres and art venues that you know. Compare the offices of the directors with those of the production team, and the education and outreach team, etc. Compare their size, the decoration, the number of windows, the level they’re situated in the building. Can you see what I am talking about?

But let us focus on how do we transform our frustrations into possibilities? There are many more critical points from which to begin with, but these are two concrete changes I would like to propose for in depth discussion: (1) changes in the management models used in running performing arts organisations and (2) a reconsideration of the role of arts managers. Needless to say these two dimensions of change go hand in hand.

(1) Making changes in the management models means changing our role models, given that we tend to adopt the management practices and the organizational models that are prevalent or presented as successful. In my view, that involves refusing the rule of best practices as role models. To allow for risk-taking, we need to allow for difference. Speaking from a small country that very often follows European trends, we need to encourage directors and teams to come up with the management model that they deem best fits their artistic, social and political circumstances. And we need to encourage policy-makers to do the same, instead of lazily adapting French and British cultural policy latest hit. We have to encourage local innovators and help leaders get rid of the fear that they are not ‘international’ enough. What makes a theatre house in Portugal ‘international’ is its ability to engage locally with the world, not how well travelled its director is or how many foreign shows it has in the programme.

I would like to see changes in the management models that have direct implications on the governance and leadership system, i.e., that admit the possibility of collective forms of managing cultural resources, recognizing right from the start the role of communities in the co-establishment of management rules. How this can be done at organizational level or at city level is one of the aspects I would like to discuss further.

A way to start thinking about these changes is opening up the organisations we run. Can we think of ways of organizing a team with different skills in a less hierarchical way? Why should the organizational chart of a cultural venue be so disturbingly similar to that of a profit-oriented enterprise? Can we think of ways of allowing citizens an opportunity to influence the strategic thinking and future plans of their local theatre? Can we think that those opportunities are as valuable as the opportunities to take part in a participatory show involving members of the community? Can we go from project-based approach to participation to a systemic-approach?

This would be a noticeable advance in the access to culture paradigm, namely, as put forward by Barbieri:

– changing from a productive system traditionally split into creation, production, distribution, consumption, towards a hybrid system with a more flexible distribution of papers;

– changing from a sectorial system towards an interdisciplinary system;

– complementing the offer-focussed system (artists, cultural agents, venues) with a needs-oriented system (users, communities);

– progressing from a binary system (government-market; artists-audiences) towards a polycentric system;

– from an administrative system (vertical control, sub-sectoral departmentalization) towards a political system (in a broad sense of the word).

If we would go down this route, we would be looking at forms of government and management that – without giving away their share of the responsibility – would offer their support to hybrid management models that escape the excesses of traditional intermediation. This might seem too risky to try at governmental level, but I argue we could at least begin to apply it to public theatres, dance houses, cultural centres.

Apparently, the good news is that these changes are already taking place. “In practice, in the field today, there are various artists, art workers and organisations involved in developing new working models that strengthen artists, redesigning organizational processes in order to create and shape fairer working relationships. They are forging new connections between activities, resources, people and organizations.” (Hesters, 2019:14).

Needless to say, in a country as Portugal for instance, with a fairly recent democracy and a social welfare system that never quite reached the stability of other countries, the possibility of relieving the state of its responsibilities is pretty scary. But if we are willing to embrace these changes we need to keep in mind that it is not about diminishing the role of the State in culture, but, quite the opposite: it is about amplifying it, by means of effectively materializing the cross sectoral nature of culture. We need of course further research on the implications of all of this in public policy-making, but the prospect of a work ecology in the arts that goes beyond the managerial model is stimulating enough for us at least to consider these possibilities.

(2) We should rethink the role of an arts manager: cultural management today is tending dangerously towards the utilitarian realm, focusing almost exclusively on operational management.

Very often, changing things around means changing yourself first. It is excellent that the profession of cultural manager has developed amazingly into a state of almost maturity and legitimacy, but it can be argued that cultural management “(…) has developed into a field where reaction rather than pro-action is the norm with little reflection upon how its practices fit within a larger context.” (Deveraux, 2009:156) It is therefore important that we are able to make a distinction between the focus on the how-to-do (how to write a grant, how to manage an European project, how to implement a successful audience development campaign, etc.) and a type of cultural management that is at the same time focused on a wider range of conceptual issues. We are in urgent need of a “ (…) critical examination of cultural management practices in order to understand the epistemological, ethical and conditioned assumptions that underpin them, (…) the accepted ways of doing – and what makes them so acceptable – and the deeper structures that such ways of doing reveal.” (Deveraux, 2009: 157)

There is both a growing uneasiness on the part of some cultural managers that are reflective practitioners (where I include myself), and a note of acrimony creeping into the perspectives of artists upon these professionals that we must pay attention to.  Hester (2019:42) sums it up quite efficiently: “There is something fundamentally wrong when professional sectors, in which work is conducted in diverse kinds of vocations and in diverse kinds of institutions, function in such a way that precisely their most central players cannot succeed in living from their professional practice. When at the end of each month, successful and recognized artists still find themselves below the poverty level, it is an important signal that the entire internal system of working, collaborating, remuneration and social protection is due for a revision.”

Could it be that we are reluctant to interrogate our professional practices and their underlying assumptions and codes because we are anxious to see our recent profession legitimatised and valued? Could it be that we fear that an attitude of systematic questioning of our codes of practice and working models threatens the development of our careers?

To this background I posit that cultural management needs to assert itself not only as a set of technical action-oriented skills, but also as an intellectual practice and, assuredly, as a field of inquiry. The urge to professionally establish an emerging field may have justified an excessive results-driven perspective – akin to prove its worth in the artistic sphere but the time has come to correct that imbalance. There is a case to be made that arts managers need to engage with critical thinking, anthropology or political science at least as much as they engage with marketing or audience development.

Both Henze (2019) and Deveraux (2009) postulate that this penchant for business and administrative expertise may have been encouraged by the arts management study courses, which seems an allegation worth proving via further research.

Artistic production processes are in fact not neutral – so they can hardly be reduced to technicalities – and they need to be inscribed in ethics and solidarity. It is not possible to say that management does not make social or political choices. “Cultural management today is also a moral issue.”, as Argentinian Guillermo Heras rightfully points out.

To sum things up, I would say we, cultural managers, face two immediate challenges: one is to transcend cultural management’s ontological phase (obsessed with defining what cultural management is) and another one is stop mimicking the administrative model, and getting rid of its managerial orientation, preventing us from being perceived as art’s modern little technocrats.

Conclusion, that is, a new beginning for cultural management

In my view, devising a new role as cultural managers means, among other challenges, the ability to replace the competition paradigm with a collaboration paradigm, by sharing processes and knowledge and stimulating horizontal learning; the ability to manage time, of course, but resisting acceleration and fragmentation; to manage money, of course, but in a way that resists the competitive spiralling which makes artistic processes come too close of other productive processes working in a capitalist matrix; the ability to be vigilant of generating hegemonic success narratives around the projects you champion; to question the established working models and fight for democratic management practices and fair work conditions for all stakeholders involved in the artistic processes; to devise a professional yet intense relationship with artists, avoiding the technocratic pitfalls and easy stereotypes; to deepen the level and the quality of citizen participation in cultural activities and in the governance of public art institutions; to actively engage in international dialogue towards more solidary and cosmopolitan societies; and to inscribe their action in ethics and solidarity and make sure the governance models of your organisation are in line with the moral values you uphold.

We keep saying the world is changing at a dizzying pace but we tend to hold on firmly to our ways of relating to it. It’s time to admit that linear mind-sets – and the hierarchical systems and structures they give rise to – are not fit-for-purpose in a non-linear world. With these brief thoughts I hope I have challenged you to reconsider notions of risk, success, collaboration or hierarchy, and come up with ideas that make a conceptual and practical turn on cultural management that reconciles our present actions with our imagined futures.


[1] RESHAPE is a research and development project that brings together arts organisations from the Europe and the South Mediterranean to jointly create innovative organisational models and reflect on concrete answers to crucial challenges related to the production, distribution and presentation of contemporary art practices. More information can be found online at https://reshape.network/.

If you’re not mad, you’re not paying attention.

No final deste mês vou até à Polónia, participar num encontro de pessoas que trabalham e pensam nas artes e estão interessadas em fazer ‘reset’ ao sistema no qual estão inseridos. Vou ter oportunidade de partilhar parte da investigação que tenho vindo a desenvolver e que aqui em Portugal ainda não comecei a tornar pública e a discutir (chegará o momento). Também me pediram para ser agent provocateur de algumas mesas de debate. Acho que nem sabem que esse é o meu disfarce de carnaval favorito, é sempre fabuloso ter carta-branca para esbravejar. Adoro que me paguem para eu elaborar sobre as razões da minha fúria. More on that soon.

(Por falar em polacos, saiu há poucos meses a tradução da biografia do Kapucinski, na Assírio, mesmo a calhar.)


Plano de Ruminação

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Na minha inclinação peripatética tenho acumulado quilómetros entre o enclave das Belas Artes e o mar: vou fazendo a fotossíntese, calcando a cidade e arrumando ideias, mas de cada vez que regresso a casa a arrumação piorou. A lista das ruminações recentes foi trabalhosa. Felizmente o Porto foi entretanto campeão e andei a agitar cachecóis e a espantar irritações, que a alegre coboiada também serve o escapismo intelectual. Por isso, ficam a reflexão sobre o encontro do IETM no Porto e outras incursões sobre a amada nação cultural enterradas debaixo do pontapé do Brahimi e das lágrimas do Sérgio Conceição. Em vez disso, estou aqui de porteiro de mais uma ego-trip para partilhar as chatices com que me vou ocupar no doutoramento. Quem quiser sair, é agora, a partir daqui fica chato.
Expor sucintamente o ponto de partida de um objecto de estudo é sempre redutor, mas parto para esta tarefa determinada a fazê-lo de forma aberta e dialogante, pelo que prefiro correr os riscos da exposição necessariamente fragmentada do que alimentar o monstro na torre de marfim. Não podia, aliás, ser de outra maneira, porque me propus trabalhar no pressuposto de que a investigação sobre artes tem uma autonomia epistemológica que deriva da própria natureza do trabalho artístico (sigo a talentosa Steyerl) e se caracteriza por um compromisso primordial com a produção de conhecimento útil aos artistas e aos que com eles trabalham. Isto passa por assumir o carácter híbrido da gestão cultural e dos estudos artísticos e, nessa medida, procurar ser orientada por uma visão devedora da visão dos artistas, integrando as narrativas produzidas pelos próprios sobre o seu trabalho, seja de forma directa, através das suas obras, seja indirectamente, através dos seus testemunhos. Será um esforço simultaneamente ético e estético: ético, porque habilita a própria produção artística para a construção do conhecimento que lhe é dedicado; estético, porque suspeito que a idealização formal própria dos artistas pode originar formulações novas quanto ao objetivo da pesquisa (ultrapassando manuais de gestão das artes reciclados da gestão empresarial). Posso estar errada, claro, o que também dá uma certa graça a isto tudo.
O ponto de partida, portanto, é o seguinte:
Aturdidos pelo pragmatismo hegemónico, os artistas e os que com eles trabalham parecem (ter de) investir toda a sua energia no contínuo combate ao subfinanciamento da actividade artística, na denúncia das situações de precariedade em que o sector largamente assenta, no questionamento dos modelos de apoio público à criação e difusão, entre outros aspectos de ordem operacional. A estes debates, decisivos, gostava de juntar o questionamento dos próprios modelos de criação, organização e trabalho dos artistas, os seus pressupostos e a natureza das relações entre pares que se têm vindo a estabelecer. Tal significa que, claro está, é urgente atender às condições do trabalho criativo em Portugal, mas também que, ao invés de analisarmos o comportamento das estruturas e dos artistas face às mutações do sistema artístico institucional (nas suas dimensões laborais, legais, económicas), queremos olhar aprofundadamente para o que se passa dentro das estruturas de criação. Não dispensando o aparato das políticas culturais e suas implicações para a estruturação do tecido artístico, interessa-nos compreender motivações e decisões individuais: porque fundamos e mantemos companhias de teatro e dança? Como as gerimos? Ou, dito de outra forma, de que modo se intersectam os regimes de criação e de produção?
Ao incidir sobre a dinâmica interna das organizações artísticas, estamos também a questionar a ideia de que, por se tratarem de entidades sem fins lucrativos, estas se orientam necessariamente por um padrão democrático nas suas práticas de trabalho e a sublinhar que a análise das condições materiais do trabalho artístico não é suficiente para compreender a sua complexidade ou algumas transformações importantes que o afectam: a crescente presença de gestores e produtores culturais trabalhando a par dos criadores, a emergência da crítica ao modelo individualista do artista-virtuoso-empreendedor, os sinais de esgotamento do modelo clássico de companhia, a contaminação crescente entre sistema institucional/projectos alternativos, ou a expansão das práticas colaborativas, por exemplo.
Partilharei mais detalhes em breve, mas, se não tiver sido engolida pela retórica, terá dado para perceber: a investigação centrar-se-á no estudo da forma como artistas, programadores, produtores e gestores culturais se organizam para trabalhar hoje, em Portugal, nas artes performativas. O desafio concreto é perspectivar novos modelos de colaboração entre os que produzem arte, os que acompanham quem a produz e a formulação de políticas culturais. Se me virem na rua e parecer distraída, ando a pensar nisto.

 

AINDA BEM.

Ainda bem que António Costa encontrou mais dinheiro para a cultura, porque ele é absolutamente necessário e merecido face ao trabalho que este sector desenvolve e aos impactos que gera (tal como o de todos os outros trabalhadores portugueses, nem mais nem menos).

Ainda bem que António Costa mantém a confiança no Secretário de Estado, porque o Miguel Honrado é, de longe, um dos mais conhecedores e comprometidos governantes que esta área teve em muitos anos.

Ainda bem que a ‘carta aberta’, mesmo que admitindo falhas e necessidade clara de melhoria, sublinha a legitimidade dos concursos  – para caos já basta o actual.

Ainda bem que a união determinada, mesmo que temporária, dos artistas e agentes culturais resultou numa exigência atendida – sinal de que, ao contrário de tempos recentes, criticar é uma forma legítima de participar na vida democrática e é dever de quem governa estar atento à crítica.

MAS NÃO É DIA DE FESTA.

Que o dinheiro tenha vindo – e seja exclusivamente justificado – como resultado da ‘extraordinária dinâmica dos concursos’ é uma desolação. Isso significa que se o júri tivesse atribuído pontuações mais baixas, abaixo do limiar de elegibilidade, não havia necessidade de reforçar o orçamento da cultura? É que todos sabemos que não são só as “companhias”, barulhentas, que precisam de dinheiro. Desde logo, o próprio Ministério da Cultura precisa de meios, por exemplo, para reforçar e qualificar a acção das Comissões de Acompanhamento, uma exigência de proximidade que está em praticamente todos os comunicados e manifestos emitidos. No campo da coesão territorial, e da articulação com a programação cultural descentralizada, está quase tudo por fazer, e – como ficou à vista – não são umas percentagens encavalitadas em cima dos montantes regionais que vão resolver o problema. E muitas outras áreas de intervenção no campo da cultura – e da intersecção entre cultura e educação, em que não há nenhuma novidade – vivem situações de penoso sub-financiamento.

É, claro, Senhor Primeiro-Ministro, que o orçamento não deve ser o único tema de discussão. Mas quanto pagamos por uma coisa continua a ser, em certa medida, uma expressão do valor que lhe atribuímos, e o facto de só ter decidido investir mais na cultura quando os protestos se tornaram desconfortavelmente mediáticos, é fraco consolo para quem anuncia ver na cultura uma centralidade inequívoca. É uma pena que, politicamente, esta não tenha sido a oportunidade para corrigir o evidente desacerto: a cultura continua sem um orçamento à altura da importância que lhe é politicamente imputada.

Dizê-lo não é menosprezar a acção de hoje, nem todas as acções deste governo em matéria de cultura. É precisamente por essa capacidade e compromisso que este governo anuncia que temos de exigir mais, e melhor. Não estranhe por isso os protestos: são de exigência, não de desvario.

 

A Criação do Suspense

Um dos primeiros livros que resolvi ler logo após ter decidido fazer o doutoramento foi “A Criação do Suspense”, da Patricia Highsmith. O meu fanatismo pelos livros dela amornou depois da adolescência, altura em que li tudo o que ela publicava, mas fiquei intrigada com este, em que ela supostamente ‘desvenda o processo de criação dos seus personagens e dos enredos em que se movimentam’. É um livrinho como deve ser (pese embora uma tradução discutível), com capa do Jorge Colombo, tamanho certo, letras gordas, com capítulos fabulosamente titulados. Vou voltar a ele muitas vezes, até porque tenho um projecto secreto de copiar umas partes, se me sentir desesperada.

“Os criminosos são dramaticamente interessantes porque, pelo menos durante algum tempo, são activos, livres de espírito e não se ajoelham perante ninguém.”

Pareceu-me logo evidente que para sobreviver à empreitada de investigação eu teria, sobretudo, de garantir que era capaz de divertir-me enquanto escrevia; igualmente, não ficaria satisfeita comigo mesma se aborrecesse de morte quem viesse a ler-me; e estava seguramente interessada em combater o medo do tédio metodológico com uma estratégia de auto-sabotagem que me mantivesse entretida. Acabei por encontrar na deliciosa história do cágado, que a Patricia Highsmith inclui neste livro, um ponto de referência que esperava que me viesse a ser útil.

“Uma noite em casa de alguém, estava a folhear um livro de cozinha e vi uma receita horrorosa para fazer um guisado de cágado. A receita para sopa de tartaruga é menos horrenda, e, pelo menos, começa-se o trabalho esperando que a tartaruga ponha a cabeça de fora, para depois a decapitar com uma faca afiada. Os leitores que achem que os livros de suspense se estão a tornar insípidos, talvez gostassem de conhecer certas partes dos livros de cozinha que têm a ver com os nossos amigos de penas e conchas. Uma dona de casa precisa de ter um coração de pedra para ler estas receitas. Quanto mais para as executar! O método para matar um cágado é cozê-lo vivo. A palavra matar não era usada, nem tinha de o ser. Que é que podia sobreviver à água a ferver? Mal acabei de ler isto, a história do rapazinho atormentado voltou-me ao espírito. Faria a história girar à volta de um cágado. A mãe traz para casa um cágado para fazer um guisado. Um cágado que o rapaz inicialmente pensa ser um animal de estimação para ele. O rapaz fala do cágado a um dos colegas da escola, tentando exibir-se, e promete mostrar-lho. Depois, o rapaz presencia a morte do cágado em água a ferver e todo o seu ódio e ressentimento recalcados contra a mãe vêm ao de cima. Mata-a a meio da noite com a faca da cozinha que ela usara para trinchar o cágado.”

Não posso, claro está, garantir que serei autorizada, pelas normas académicas, a introduzir cágados e facas de cozinha no texto da tese só para enganar a previsibilidade e sensação de dormência que me dão a maioria dos trabalhos de investigação (e não tenho razões para acreditar que serei diferente). Mas posso tentar lembrar-me da bela gargalhada que dei na página catorze desse livro, e procurar que essa memória me impeça de ser demasiado enfadonha.

[A Criação do Suspense, Parte 2]

Apesar de o meu amigo P. me lançar um olhar levemente desaprovador e condescendente de cada vez que falo nisto, tenho para mim há muitos anos que os livros de ficção são tão relevantes para a estruturação do nosso pensamento como os ensaios ou os artigos científicos. Não me refiro apenas àqueles pensamentos que normalmente associamos à nossa ‘vida interior’, emocional ou espiritual; falo de muito mais: encontrei sempre nos romances, nos livros de viagens, nas biografias a possibilidade de pensar sobre uma vastidão de assuntos ‘objectivos’ e foram-me sempre úteis no campo profissional. Se não vejam como a mestre do suspense e do policial sabe tudo sobre gestão cultural:

“Como os boxeurs, podemos começar a enfraquecer depois dos trinta, isto é, já não conseguir continuar com apenas quatro horas de sono e, depois, começamos a refilar por causa dos impostos e a pensar que o objectivo da sociedade é afastar-nos desta profissão. É bom, então, lembrarmo-nos que os artistas existiram e persistiram, como o caracol e o peixe da espinha côncava e outras imutáveis formas de vida orgânica, desde muito antes de se ter pensado na existência de governos.”

É que nem sei se levo isto do doutoramento avante. Valerá a pena?

The company of strangers

Working in the margins of the arts, I have to be thankful for all the debates and conferences I am invited to, and proud of myself to take up most of them, even if time is always so scarce and if many times I lack proper preparation and wisdom. I have explained elsewhere why I keep doing it: I am a believer in the relevance of a public sphere as a fundamental element of democracies, and I do my best to share my ideas, listen to others’, and learn from dissent. I think it is important to be learning all the time. I am not so naif as to believe humanity has a capacity to learn from History, but at a personal level at least we do have memory, and we should act accordingly, I guess. For me that means acknowledging that, in the European and Portuguese recent past, consensus and silence have proved to be not that big of a help for individual freedom, so it is important to look for divergent thought, for the experience of multiple minorities, for the opinions of non-specialists, and outsiders. On top of those reasons to accept every other invitation to chat, there is another one: social media has magnified our comfort bubble to such a formidable extent, that it feels crazy not to test our thinking outside it. The risk of staying inside the bubble (Facebook but also think-alikes) is more than just boredom and self-confirmation: it is also sheer arrogance. That is why I like the company of strangers.
So more or less a month ago Alastair Donald, who works for the Institute of Ideas, invited me for the second time to speak at an event they call “Battle of Ideas”. It runs on a simple format, but one in which people engage more lively and commitedly than I usually see in most conferences. One of the reasons for it, I believe, is the fact that it is totally about the debate itself, the value of collective discussion, and not coreographed projections of the panelists’ statements. This time the debate was around “who and what are the arts for?”. I decided to try and answer that question in the most simple and direct way I could. I grabbed a sheet of paper and wrote down the first five answers that came to my mind. (I focused more on the “what are the arts for” than on the “who”, because I think one follows the other, and the what is more important.) So here are five reasons I think we should keep in mind whenever we discuss this.
What are the arts for?

1. FOR NOTHING.
This is the first and most important reason to keep in mind. Art is, fundamentally, useless. Unless we come to terms with this, we risk repeating this conversation until the end of times. Some artists go as far as to claim the right to uselessness, and that is just about right. If you appreciate art, you should be ready to give the artists the freedom from purpose that they need. And you should ask your government to do the same.

2. FOR REASONS WE DO NOT KNOW YET
I argue that artistic processes have a lot in common with scientific investigation. Both dwell systematically upon the unknown, both depend on the freedom to speculate. Like science, art needs to be able to experiment with no strings attached. It can’t promise to deliver specific, pre-determined results, its only commitment is with rigour and with innovation. Experimental processes eventually lead to great and complete works of art, others….don’t. It is how we value imagination that counts. It is how much we want to live in a world that has a place for those that don’t know the answers, but can make superb questions.

3. FOR PLEASURE
It is more or less the same as for nothing, I guess. It is because it feels good to listen to great music, or because we enjoy fantasizing, or because we are drawn to beauty, or to ugliness and repulse as equally powerful drivers. It is because some people love painting so much they cannot do without painting, or singing, or…. Some people feel so strongly about something, they cannot live without doing it, and some of those people are artists. (This passion for what they do is often used against them, but let’s not deal with that now)

4. FOR MONEY
It can happen that some (very good or very bad ) artists can make money out of their art. They are but a few, but, hey, folks, IT IS OK! Money has been an integral part of our social life for as long as History can recall, so stop trying to pretend that art has nothing to do with it. So next time you hear someone complain about the cost of a theatre ticket, ask them if they get their beef for free.

5. FOR PUBLIC GOOD
This is actually a no-brainer. So much, that it is somewhat unsettling that governments struggle with it. If you need a heart transplant, you are better-off being helped by a surgeon than a poet, right? That is the same reason you shouldn’t ask artists to take responsibility for urban regeneration, or alleviate poverty, or reduce school dropout. Personally, I don’t want a government to fund artistic projects for kids who drop out of school, I need a government who effectively prevents school dropouts. Same goes with poverty.
Let’s take a little longer examining this one, because it is hardly the only reason why governments admit funding the arts for! Dear Prime-Ministers, what is wrong with you? You go on and on about the importance of the arts and culture, and then you want to tie us up to issues that have nothing to do with art and I about which we have little or no competence about. Let’s be clear: it is not that we don’t acknowledge that the arts can make significant contributions to our public and personal life; it is that those are collateral effects, not the reason (most) artists make art for. Sorry for insisting on idiotic comparisons, but I am running out of patience with this one: would you fund a hospital because its building is 19th century architectural heritage? Exactly.
Are we done here? Good, now we can talk about art.