The company of strangers

Working in the margins of the arts, I have to be thankful for all the debates and conferences I am invited to, and proud of myself to take up most of them, even if time is always so scarce and if many times I lack proper preparation and wisdom. I have explained elsewhere why I keep doing it: I am a believer in the relevance of a public sphere as a fundamental element of democracies, and I do my best to share my ideas, listen to others’, and learn from dissent. I think it is important to be learning all the time. I am not so naif as to believe humanity has a capacity to learn from History, but at a personal level at least we do have memory, and we should act accordingly, I guess. For me that means acknowledging that, in the European and Portuguese recent past, consensus and silence have proved to be not that big of a help for individual freedom, so it is important to look for divergent thought, for the experience of multiple minorities, for the opinions of non-specialists, and outsiders. On top of those reasons to accept every other invitation to chat, there is another one: social media has magnified our comfort bubble to such a formidable extent, that it feels crazy not to test our thinking outside it. The risk of staying inside the bubble (Facebook but also think-alikes) is more than just boredom and self-confirmation: it is also sheer arrogance. That is why I like the company of strangers.
So more or less a month ago Alastair Donald, who works for the Institute of Ideas, invited me for the second time to speak at an event they call “Battle of Ideas”. It runs on a simple format, but one in which people engage more lively and commitedly than I usually see in most conferences. One of the reasons for it, I believe, is the fact that it is totally about the debate itself, the value of collective discussion, and not coreographed projections of the panelists’ statements. This time the debate was around “who and what are the arts for?”. I decided to try and answer that question in the most simple and direct way I could. I grabbed a sheet of paper and wrote down the first five answers that came to my mind. (I focused more on the “what are the arts for” than on the “who”, because I think one follows the other, and the what is more important.) So here are five reasons I think we should keep in mind whenever we discuss this.
What are the arts for?

1. FOR NOTHING.
This is the first and most important reason to keep in mind. Art is, fundamentally, useless. Unless we come to terms with this, we risk repeating this conversation until the end of times. Some artists go as far as to claim the right to uselessness, and that is just about right. If you appreciate art, you should be ready to give the artists the freedom from purpose that they need. And you should ask your government to do the same.

2. FOR REASONS WE DO NOT KNOW YET
I argue that artistic processes have a lot in common with scientific investigation. Both dwell systematically upon the unknown, both depend on the freedom to speculate. Like science, art needs to be able to experiment with no strings attached. It can’t promise to deliver specific, pre-determined results, its only commitment is with rigour and with innovation. Experimental processes eventually lead to great and complete works of art, others….don’t. It is how we value imagination that counts. It is how much we want to live in a world that has a place for those that don’t know the answers, but can make superb questions.

3. FOR PLEASURE
It is more or less the same as for nothing, I guess. It is because it feels good to listen to great music, or because we enjoy fantasizing, or because we are drawn to beauty, or to ugliness and repulse as equally powerful drivers. It is because some people love painting so much they cannot do without painting, or singing, or…. Some people feel so strongly about something, they cannot live without doing it, and some of those people are artists. (This passion for what they do is often used against them, but let’s not deal with that now)

4. FOR MONEY
It can happen that some (very good or very bad ) artists can make money out of their art. They are but a few, but, hey, folks, IT IS OK! Money has been an integral part of our social life for as long as History can recall, so stop trying to pretend that art has nothing to do with it. So next time you hear someone complain about the cost of a theatre ticket, ask them if they get their beef for free.

5. FOR PUBLIC GOOD
This is actually a no-brainer. So much, that it is somewhat unsettling that governments struggle with it. If you need a heart transplant, you are better-off being helped by a surgeon than a poet, right? That is the same reason you shouldn’t ask artists to take responsibility for urban regeneration, or alleviate poverty, or reduce school dropout. Personally, I don’t want a government to fund artistic projects for kids who drop out of school, I need a government who effectively prevents school dropouts. Same goes with poverty.
Let’s take a little longer examining this one, because it is hardly the only reason why governments admit funding the arts for! Dear Prime-Ministers, what is wrong with you? You go on and on about the importance of the arts and culture, and then you want to tie us up to issues that have nothing to do with art and I about which we have little or no competence about. Let’s be clear: it is not that we don’t acknowledge that the arts can make significant contributions to our public and personal life; it is that those are collateral effects, not the reason (most) artists make art for. Sorry for insisting on idiotic comparisons, but I am running out of patience with this one: would you fund a hospital because its building is 19th century architectural heritage? Exactly.
Are we done here? Good, now we can talk about art.

[aquela sensação reconfortante de as acções estarem de acordo com os pensamentos]

Numa altura em que há residências artísticas em todos os armazéns e pastelarias, e que não há centro cultural, cidade ou programação que se preze que não lhes dedique um espaço – e ainda bem! – já seria tempo de discutir com seriedade para que(m) servem, que formatos podem assumir e a que condições de trabalho correspondem efectivamente. Já há muito tempo que reflicto sobre isto, nomeadamente sobre o tremendo impacto que as variáveis tempo e dinheiro têm sobre as condições de criação artística (é fixe poder fazer aqui um link para algumas dessas intervenções em conferências ou textos, porque é uma forma sofisticada de me citar que é igualmente parola, mas o hyperlink disfarça).

Vem isto a propósito da residência que o Greg Wohead*, meio texano, meio londrino, começa depois de amanhã na mala voadora. Vem para o Porto para uma residência de dois meses, enquadrado no Dois por Dois, o programa de residências artísticas internacionais que a mala voadora inicia este ano. É que esta residência, não sendo perfeita, é uma versão muito aproximada do tipo de condições de trabalho que é importante reunir se realmente estivermos interessados em apoiar a dimensão de pesquisa e experimentação de que os processos de produção artística habitualmente dependem.

Argumentei muitas vezes que era importante e urgente considerarmos adequadamente as etapas iniciais do processo artístico (por contraponto a uma cultura viciada na apresentação e subsequente difusão); considerarmo-la mais ou menos da mesma forma que entendemos a pesquisa laboratorial como indissociável do processo de produção de conhecimento científico, e lhe atribuímos recursos e relevância social. Por isso que bom que, apesar de todas as dificuldades e de muitos paradoxos (o mais importante dos quais será o facto de a própria mala voadora nunca ter beneficiado de condições idênticas para o desenvolvimento dos seus próprios projectos) – dizia eu que, que bom que estou agora envolvida na criação do Dois por Dois. Que bom que, numa ou noutra ocasião, podemos fazer as coisas como elas devem ser feitas, quase como se estivesse tudo bem com o apoio às artes em Portugal.

*com o inestimável apoio do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal do Porto, no âmbito do programa InResidence.

livrinho de boas maneiras para autarcas

O que tem esta entrevista à Catarina Vaz Pinto, tão simples, de excepcional? Para mim: a determinação serena de um percurso ininterrupto ao serviço da cultura, a justa articulação entre política e gestão cultural, o apreço pela intervenção pública fundamentada, isto é, a noção de que é tão importante esclarecer as convicções políticas que orientam a acção como fazê-lo incorporando informação e reflexão independente e especializada. Só isto já dava um livrinho de boas maneiras para autarcas com o pelouro da cultura. Um ponto de discórdia, pelo menos: percebo bem a rejeição da ‘fulanização’ do cargo de vereador/a da cultura (em tempos de populismo abundante agradece-se o desapego), mas diz-me a experiência que a cultura (entendida sectorial ou transversalmente, façam as vossas escolhas) ainda carece muitíssimo de protagonistas que afirmem positivamente a relevância da cultura e das artes enquanto domínio de política pública. Ora essa afirmação, gostemos ou não, faz-se sobretudo no campo da política, e não apenas da demonstração de competência técnica. Há inúmeros Presidentes de Câmara (para não dizer vereadores da cultura…), por esse país fora, para usar linguagem de auto-estrada, para quem o Pelouro da Cultura, ainda que instrumentalmente valioso, é politicamente irrelevante. Não o admitirão, porque é politicamente incorrecto, claro; a ‘valorização da cultura’ entrou há muito no jargão oco do senso comum, acompanhada por uma tomatada incapaz de distinguir ‘arte’ e ‘cultura’. O que, em termos do senso comum, dá imenso jeito, como se sabe.

É por isso que entendo que uma intervenção inteligente e discreta deveria bastar-nos, de facto, mas miseravelmente ainda estamos precisados de que o pensamento progressista e defensor das artes não se coíba de se afirmar politicamente.

 

25 de Abril

Hoje não é dia de relativizar a bolha algorítmica, nem de escarnecer da tentação moralizante. É mais um cravo, sim senhora, a juntar às centenas em que já tropecei hoje de manhã. Ainda assim são poucos, visto da Google isto é pequenino. Malta, isto não é para romantizar o passado, nem para pôr na mão ou na lapela. É para pôr na cabeça. Liberdade é agir em conformidade, por isso é que rima.6260101_o32T7

Escrevo mais no Verão. Tudo mais no Verão. (Nasci a 30 de Julho, pelo que suponho que o disparate astral alimente a tendência). Se tivesse tempo agora, havia de escrever sobre o que foram estes dias em Alcobaça. Maçãs e vinho, claro, mas também o prazer de estar com gente de cabeça fresca a preparar um grande projecto, “A Manual on Work and Happiness”. É resultado de uma vitória merecida: a Artemrede ganhou a candidatura ao programa Creative Europe. Juntou-se um centro de residências artísticas em Itália, o L’Arboreto, o Festival Pergine Spetaccolo Aperto e um grande teatro grego de Patra. E como na direcção artística está a mala voadora e o Pablo Gisbert, espera-se do melhor. Em lume brando. Até já.

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I write more in the Summer. Everything more in the Summer. (I was born on the 30th July, so I suppose the astral nonsense feeds that inclination). If I had the time now, I’d write about these days in Alcobaça- Apples and wine, quite obviously, but also the pleasure of being around broad-minded people preparing a great Project, “A Manual on Work and Happiness”. That’s the concrete result of a well-deserved victory: Artemrede won the application to the Creative Europe programme. It was joined by a centre for artistic residencies in Italy, L’Arboreto, by the Pergine Spetaccolo Aperto Festival and by a great Greek theatre in Patra. And because the artistic direction is secured by mala voadora and Pablo Gisbert, one can only expect the best. Cooking in low heat.

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SIZE MATTERS

Terminou “Uma Família Inglesa”!

SIZE MATTERS

Esta é a segunda reunião de família que fazemos na mala voadora.porto. Quando decidimos organizar a primeira edição de Uma Família Inglesa já suspeitávamos que este viria a ser um sítio onde queremos estar: o sítio onde juntamos excelentes performers para apresentar espetáculos inéditos no Porto (alguns em Portugal) e onde ensaiamos ligações cada vez mais estreitas entre o nosso histórico enquanto companhia de teatro e o micro-projecto de programação que é a malavoadora.porto. Na verdade, usamos o título do aborrecido Júlio Dinis apenas porque já estava feito e não era preciso inventar um novo: nem família, nem inglesa, nem género, nem pátria. Esta família inglesa é mais uma aliança de artistas que trabalham com artistas que admiram artistas, absolutamente comprometidos com o teatro e a dramaturgia (evitemos dizer “contemporâneos” porque a necessidade dessa adjetivação é muito mau sinal).
Mas esta aliança de cúmplices tem, igualmente, implicações do ponto de vista da construção da programação – implicações que não queremos deixar de referir. Temos vindo a experimentar, desde 2014, a partir da Rua do Almada no Porto, um projeto de programação que dialoga com o histórico da companhia de teatro que o protagoniza. Ainda que com iniludíveis fragilidades financeiras, a malavoadora.porto tem constituído – parece-nos – uma experiência que pode ser interessante para pensar sobre alguns contornos do que é “programar”.
A malavoadora.porto não é compatível com euforias festivaleiras nem com certas ambições institucionais. Procura tornar claro o papel imprescindível dos espaços de apresentação independentes. Bate-se pela importância das salas pequenas, em que as possibilidades de uma proposta não morrem no altar dos números de públicos. Confia tudo nos artistas e nas artes todas. Não duvida de que as imperfeições de quem não acumulou experiência são mais estimulantes do que os produtos “otimizados”. Não se preocupa com definições disciplinares debaixo das quais arruma a sua divulgação. Dificilmente tem a atenção de críticos. Tal como os espetáculos da mala voadora, não reflete uma fórmula ou um posicionamento específico.
Numa altura em que o papel dos programadores se encontra em crise – em crise no bom sentido, ou seja, sujeito a um reequacionamento – parece-nos fazer sentido olhar para toda esta fragilidade. Mais do que a crónica da tão anunciada morte do programador-autor, podemos contribuir para uma discussão sobre as possíveis reconfigurações a que esta transformação dará lugar. Claro que é possível (e, em boa medida, certíssimo) lamentar a rarefacção do poder de um conjunto de programadores “cultos e livres” que se esforçavam por tornar o mundo inteligível, por abrir caminhos de descoberta pessoal dos quais todos somos devedores. Mas agora, face à implacável EXCELização das programações dos grandes teatros (ou do mundo), talvez a fragilidade tenha um papel a cumprir que, não sendo exatamente novo, parece tornar-se mais necessário. E aqui há um dado fundamental: os projetos de fragilidade só são viáveis no longo prazo – o mesmo tempo que demorará o desejado caminho do sistema de programação da cidade do Porto até ao “plural”, até ao “independente”, até ao “cosmopolita”.

texto publicado no programa “Uma Família Inglesa”, malavoadora.porto.7