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“O que fazer daqui para trás”

O título foi roubado ao João Fiadeiro; nomeava um espectáculo em que se procuravam “os traços e os rastros para dar início à impossível tarefa de reconstruir o mundo, uma e outra vez.” Não é que eu saiba como se fará isso, nem de perto nem de longe. Limito-me, como todos nós, a pensar, a especular. E procuro fazê-lo a partir de um horizonte optimista, porque cenários deprimentes são sempre mais abundantes (e incrivelmente mais confortáveis, porque quem é pessimista tem sempre alguma razão). Suponho e espero que algumas ideias que já circulavam nas margens – nas margens políticas, académicas, estéticas – possam merecer agora mais atenção. Suponho e espero que de tudo isto emane um imperativo de reconfiguração dos nossos modos de vida em comum. Por isso, tenho vivido com desconforto a aceleração dos últimos dias. Não só o ritmo a que as actualizações noticiosas se sucedem é avassalador, também os apelos para tudo e mais alguma coisa não param. Assina carta, contribui para podcast, festival online, recomendações de filmes e livros, aproveita e escreve, a juntar a um quotidiano pessoal e familiar já desorganizado. Ufa!

Respeito profundamente todos os que se mobilizam para criar conteúdos online, e reinventar práticas artísticas em modo digital (uma área bem significativa e pré-existente, aliás) mas… talvez irmos com um pouco mais de calma, não, malta? A hipótese de que, mesmo que involuntariamente, possamos estar a ‘produtivizar’ a pandemia é suficientemente arrepiante para pelo menos ponderarmos tanta partilha, tanta iniciativa, tanto concerto online, tanto ioga em streaming. (É que não se aguenta!) Pessoas diferentes relacionam-se necessariamente de forma diferente com as crises. E, nesse sentido, todos os contributos genuínos são igualmente válidos, pelo que não é minha intenção desvalorizar os esforços de tantos, apenas complementá-los com outra perspectiva: a de que esta vertigem tem de ser questionada. A urgência que sentimos em reagir – e em nos reposicionarmos, designadamente em termos dos conteúdos e formatos dos nossos projectos – não será, justamente, um sintoma do que, em parte, nos conduziu até aqui?

Não tenho dúvidas de que o que está a passar-se terá impactos extraordinários no nosso futuro, e espero que sim, que a tremenda factura que estamos a pagar nos obrigue a repensar as nossas práticas, os princípios em que assentam e as modalidades de fruição que sugerem. Mas, justamente: a repensar, a pensar mais, a pensar de novo, a pensar melhor, a pensar diferente. E pensar não equivale a reagir, muito menos imediatamente.

Entendo que há coisas, no entanto, que não podem ser adiadas: a luta por auxílio imediato aos mais vulneráveis, em que se incluem os que trabalham nas artes e na cultura de forma precária. Mas, mesmo nessas lutas urgentes, parece-me que é importante, também, que desenhemos um arco do tempo mais largo, e que nos equacionemos sempre na relação com toda a sociedade. As nossas especificidades e o grau de profissionalização que as nossas práticas atingiram não devem confundir-se com tácticas de excepcionalidade, sob pena de falharmos o essencial. É evidente que cabe ao Ministério da Cultura – e a todos os organismos públicos ou publicamente financiados – assumir responsabilidades solidárias imediatas. Mas estou convencida que, a partir de agora, qualquer resposta sectorial será forçosamente uma resposta de curto prazo. Necessária, evidentemente, mas que não só não é prolongável no tempo, como não assegura as condições sociais e políticas que permitirão a reconfiguração dos modelos em que assentam as artes e a cultura. Em lume brando, e aflitos, lá chegaremos.

Mais sobre isto aqui: Against Productivity in a Pandemic

PS eu-eu-eu: O livro “AS PRODUTORAS – Produção e gestão cultural em Portugal” já não poderá ser lançado em Maio, como estava previsto. Neste momento, navegamos à vista. Espero ter notícias entretanto.

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